Há documentários musicais que celebram um artista e há aqueles que procuram compreender o ser humano escondido atrás da fama. "Waldo", dirigido por Charlie Arnaiz e Alberto Ortega, pertence decididamente ao segundo grupo. Em vez de construir uma hagiografia sobre o compositor argentino Waldo de los Ríos, responsável por popularizar a versão sinfônica de "Himno a la alegría" e por revolucionar a música popular espanhola nas décadas de 1960 e 1970, o filme investiga as fissuras de um homem cuja genialidade caminhava lado a lado com a solidão, a depressão e a violência de uma sociedade profundamente homofóbica.
A narrativa parte da morte do músico, encontrado em 1977 com dois tiros no rosto, oficialmente considerada suicídio, para reconstruir sua trajetória através de cartas, filmes caseiros, gravações em áudio e fotografias preservadas pelo próprio Waldo. Esse vasto acervo, somado aos depoimentos de familiares, amigos e de sua viúva, a jornalista Isabel Pisano, transforma o documentário em uma investigação íntima sobre um artista que parecia registrar a própria vida na esperança de não ser esquecido.
O aspecto queer atravessa toda a obra de maneira sensível e contundente. Embora Waldo nunca tenha vivido publicamente sua homossexualidade, o documentário evidencia o peso que o preconceito exerceu sobre sua existência, especialmente durante a Espanha franquista e os anos imediatamente posteriores à ditadura. Sua orientação sexual não é apresentada como curiosidade biográfica, mas como um elemento inseparável das pressões que contribuíram para seu sofrimento emocional.
"Waldo" impressiona pelo modo como transforma arquivos pessoais em linguagem cinematográfica. A montagem organiza cartas, fitas cassete, diários e registros domésticos como se cada fragmento fosse uma peça de uma memória quebrada. Os diretores evitam narrações excessivamente explicativas e permitem que a voz do próprio compositor conduza grande parte da narrativa, estabelecendo uma relação emocional rara entre espectador e personagem.
O roteiro encontra equilíbrio entre a investigação histórica e a dimensão afetiva, ainda que algumas questões permaneçam inevitavelmente sem resposta. Em vez de preencher todas as lacunas, Arnaiz e Ortega compreendem que certos mistérios pertencem ao próprio Waldo. Essa recusa em oferecer conclusões fáceis fortalece o documentário, que jamais transforma o sofrimento psíquico em espetáculo nem reduz seu protagonista à tragédia de seu desfecho.
"Waldo" resgata um dos grandes nomes da música ibero-americana ao mesmo tempo que devolve humanidade a uma figura frequentemente reduzida ao mito ou ao escândalo de sua morte. Charlie Arnaiz e Alberto Ortega realizam um documentário elegante, profundamente melancólico e politicamente relevante, ao revelar como talento, sucesso e criatividade não foram suficientes para proteger Waldo de los Ríos da homofobia, da repressão e da solidão. O resultado é um retrato emocionante de um homem que desejava permanecer vivo através de sua obra e que, graças a este filme, finalmente encontra uma nova forma de permanência.
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