Hayley Kiyoko transformou um dos videoclipes sáficos mais importantes da década passada em romance literário e, agora, em seu primeiro longa como diretora. "Girls Like Girls" expande o universo criado em 2015 sem perder de vista aquilo que fez da obra um fenômeno para uma geração inteira: a possibilidade de jovens lésbicas e bissexuais se enxergarem no centro de uma história de amor. Ambientado em 2006, o filme acompanha Coley, recém-chegada a uma pequena cidade do Oregon após a morte da mãe, que encontra em Sonya uma amizade capaz de despertar sentimentos que ambas ainda não conseguem nomear.
Kiyoko demonstra sensibilidade ao reconstruir uma adolescência anterior às redes sociais e à maior visibilidade LGBTQIA+ dos dias atuais. As conversas pelo AOL Messenger, os iPods, os mergulhos no lago e os passeios de bicicleta evocam um verão que parece suspenso no tempo. O romance entre Coley e Sonya faz da descoberta afetiva algo íntimo e reconhecível.
Kiyoko não ignora os medos que cercavam adolescentes LGBTQIA+ em meados dos anos 2000, quando assumir um relacionamento entre duas garotas ainda parecia um risco enorme. O filme também acerta ao colocar duas jovens racializadas no centro da história, ampliando uma representatividade ainda pouco frequente nas grandes produções do gênero. A própria diretora declarou que desejava realizar o filme que gostaria de ter visto quando era adolescente.
Esteticamente, nota-se a origem de Kiyoko como diretora de videoclipes. A fotografia aposta em luz dourada, contraluzes e movimentos suaves de câmera que transformam aquele verão em uma memória afetiva permanente. Em alguns momentos, essa estética faz o longa flertar com a linguagem de vídeos musicais, Ainda assim, Maya Da Costa e Myra Molloy sustentam a experiência com interpretações delicadas e uma química convincente, capazes de transmitir tudo mesmo quando os diálogos optam pelo minimalismo.
Se existe uma limitação, ela está justamente no roteiro. Algumas situações seguem caminhos previsíveis e determinados conflitos emocionais poderiam receber maior desenvolvimento. A narrativa prefere permanecer em uma zona de conforto, evitando riscos que poderiam aprofundar ainda mais suas personagens. Mas, essa simplicidade também permite que a sinceridade dos sentimentos permaneça sempre em primeiro plano.
"Girls Like Girls" cumpre algo importante: entrega às novas gerações uma história sáfica luminosa, romântica e repleta de esperança. Hayley Kiyoko confirma que seu compromisso com a representação queer vai além da música e demonstra personalidade como cineasta, realizando um filme delicado, nostálgico, POP e emocionalmente honesto.
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