Adam Shankman abraça o absurdo sem qualquer constrangimento em STOP! THAT! TRAIN!, uma comédia-catástrofe que transforma um trem de luxo em palco para um espetáculo de humor nonsense, cultura drag e referências ao cinema pastelão. A trama segue Tess (Ginger Minj) e DeeDee (Jujubee), duas comissárias ferroviárias que deixam uma linha decadente para trabalhar no extravagante Glamazonian Express. Quando uma tempestade ameaça lançar o trem desgovernado contra Los Angeles, elas precisam unir forças com uma equipe de primeira classe nada amigável e com a espalhafatosa Presidente Gagwell (RuPaul). O resultado é uma sucessão de gags visuais, cameos de luxo e situações exageradas que recuperam o espírito de clássicos como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, filtrado pela estética do universo de RuPaul's Drag Race.
Shankman compreende que o filme jamais funcionaria se buscasse qualquer compromisso com o realismo. A encenação aposta em um ritmo frenético, teatral, onde praticamente cada plano esconde uma piada visual ou um comentário absurdo ao fundo, Há um prazer evidente em construir um universo paralelo no qual drags ocupam naturalmente funções de heroínas, enquanto celebridades como Sarah Michelle Gellar, Joel McHale, Rachel Bloom e outros surgem em participações que ampliam o espírito de festa permanente. Nem todas as piadas encontram o alvo, mas a quantidade de ideias lançadas por minuto faz com que o filme raramente perca energia.
É bem mais que uma esquete estendida de Drag Race permitindo que elas sejam heroínas, protagonistas românticas, figuras de autoridade e agentes do caos ao mesmo tempo. Mesmo tendo dirigido o remake de "Hairspray", Adam Shankman definiu o projeto como seu primeiro filme "assumidamente queer" depois de décadas de carreira, não apenas pelo elenco majoritariamente LGBTQIA+, mas porque toda sua lógica narrativa parte da teatralidade, da exuberância e da irreverência que fazem parte da cultura drag. Muitas RuGirls, como Latrice Royale, Monét X Change e Angeria Van Michaels, ocupam a tela nem que seja rapidamente para um gag absurdo.
A produção abraça muito bem a estética camp. Figurinos extravagantes, maquiagem carregada, cenários artificiais, e com maquetes, e uma direção de arte que jamais tenta esconder sua natureza caricata dialogam diretamente com a tradição do exagero apropriada pela cultura queer ao longo das décadas. O próprio trem parece existir numa realidade paralela onde tudo pode acontecer, reforçando um senso de fantasia que aproxima o filme tanto das competições televisivas de drag quanto das grandes comédias absurdas produzidas entre os anos 1970 e 1980. A fotografia colorida e a montagem veloz trabalham sempre em favor desse excesso.
O roteiro de Christina Friel e Connor Wright é bem mais eficaz, e engraçado, que o de "Bitch Who Stole the Christmas". O elenco demonstra enorme sintonia, especialmente Ginger Minj, Jujubee, Brooke Lynn Hytes e RuPaul, que entendem perfeitamente o tom debochado da narrativa. Existe uma sinceridade divertida na maneira como todos interpretam situações completamente ridículas com absoluta convicção, respeitando uma das regras fundamentais da boa paródia: tratar o absurdo com máxima seriedade.
STOP! THAT! TRAIN! encontra um público específico apto a experimentar escancaradamente camp ou da tradição das grandes paródias hollywoodianas. Há piadas internas que só quem assista o programa irá entender, enquanto celebra a arte drag, em um momento político que ela precisa ser celebrada. Entre explosões, tempestades improváveis, números performáticos e piadas que se acumulam, Adam Shankman entrega uma homenagem afetuosa tanto ao cinema pastelão quanto à potência transformadora da performance drag. É uma obra assumidamente boba, consciente de sua própria artificialidade e, justamente por isso, muito divertida.
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