domingo, 5 de julho de 2026

Siempre Vuelven (Argentina/Uruguai, 2025)

A estreia de Sergio de León em longas revela um cineasta interessado em abordar o amadurecimento queer por caminhos pouco convencionais. Em "Siempre Vuelven", o luto, o desejo e a descoberta da sexualidade caminham junto, sempre atravessados por um simbolismo delicado e, por vezes, surreal. A trama acompanha Emilio (Bruce Pintos), um jovem de 18 anos que, após a morte da mãe, herda um pombal de pombos-correio e passa a cuidar tanto da criação quanto das dívidas deixadas por ela. Ao lado de Juan (Juan Wauters) , antigo companheiro da mãe, ele encontra nos pássaros uma forma de reconstruir a própria vida, enquanto desperta para sentimentos até então desconhecidos.

Embora a narrativa tenha como ponto de partida uma perda familiar, o filme rapidamente amplia seu horizonte para discutir identidade e desejo. Emilio não atravessa apenas o luto, mas também um processo de autoconhecimento que transforma seu olhar sobre o próprio corpo e sobre aqueles que o cercam. Sergio de León evita recorrer ao arco do "coming out", preferindo observar pequenas descobertas cotidianas, silêncios e impulsos que surgem naturalmente.

Existe ainda uma dimensão poética que diferencia "Siempre Vuelven" de outros dramas queer latino-americanos. Os pombos-correio deixam de ser simples elementos narrativos para assumir um papel simbólico constante. Representam memória, retorno, pertencimento e liberdade, acompanhando Emilio em uma jornada onde cada voo parece refletir um novo estado emocional. A lenda da pomba Winkie, evocada durante a narrativa, reforça essa construção quase fabulesca, enquanto o filme mistura humor discreto, erotismo, realismo mágico e imagens de forte apelo sensorial.

Bruce Pintos entrega uma atuação extremamente natural, sustentando um protagonista que fala pouco, mas expressa muito. Ao seu lado, o músico uruguaio Juan Wauters confere enorme humanidade ao personagem Juan, estabelecendo uma relação afetuosa que também surge em acordes musicais. A fotografia privilegia paisagens rurais e espaços abertos, típicos do Uruguai, contrastando com uma paleta que remete a plumagem dos pombos, ressaltando a intensidade emocional dos personagens.

Em vez de explicar seus símbolos, Sergio de León prefere sugeri-los. Há momentos em que a narrativa assume contornos oníricos e flerta com a fantasia, mas sem abandonar o cotidiano daquela comunidade rural uruguaia. O erotismo também aparece de forma livre e desinibida, integrando-se ao percurso emocional de Emilio.. Essa combinação de lirismo, desejo e estranheza faz do filme uma experiência bastante singular,

Ao transformar um pombal em cenário para um delicado rito de passagem, Sergio de León realiza um filme sobre heranças que vão muito além das materiais. "Siempre Vuelven" compreende que crescer significa aprender a conviver com aquilo que permanece.. Entre pássaros que sempre encontram o caminho de volta, desejos que acham espaço para existir e memórias que insistem em estar vivas, o diretor constrói uma obra sensível, confirmando sua chegada como uma voz promissora do novo cinema queer latino-americano.


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