Muito antes de celebrar uma conquista, "A Coroa de Ruby", novo documentário de Henrique Arruda, procura compreender tudo o que existe por trás dela. Ao acompanhar Ruby Nox durante os meses em que aguardava, em absoluto sigilo, a exibição da segunda temporada de "Drag Race Brasil", o curta de 24 minutos registra a tensão, as dúvidas, os preparativos e a entrega exigidos para ocupar um dos maiores palcos da cultura drag contemporânea. O resultado é um retrato íntimo de uma artista que jamais abandona suas origens no sertão pernambucano, revelando que a coroa é apenas a consequência de uma trajetória construída muito antes das câmeras do reality.
Henrique Arruda confirma, mais uma vez, sua habilidade em borrar as fronteiras entre documentário, performance e ensaio audiovisual. Assim como em outros trabalhos de sua filmografia, o diretor aposta na mistura de linguagens para construir uma narrativa profundamente brasileira. A literatura de cordel atravessa o filme ao lado da exuberância da arte drag, enquanto as referências musicais percorrem extremos aparentemente distantes, de Shirley Bassey à rainha do forró Marinês.
O aspecto mais interessante do documentário está justamente naquilo que o público raramente vê. Arruda acompanha os bastidores dos ensaios fotográficos, a elaboração dos figurinos, a concepção dos looks e o trabalho quase artesanal que antecede cada aparição pública da drag queen. São momentos que desmontam qualquer ideia de glamour imediato. A construção de uma estrela exige planejamento, criatividade, investimento financeiro e uma enorme carga emocional. Os depoimentos íntimos de Ruby, conduzidos com a naturalidade de seu delicioso sotaque sertanejo, aproximam a personagem do espectador e
revelam fragilidades que o formato competitivo do reality dificilmente permitiria explorar.
Há também um componente afetivo evidente entre cineasta e personagem. Henrique Arruda acompanha Ruby Nox há anos, e essa intimidade se transforma numa vantagem narrativa. O documentário nunca assume uma postura distante ou jornalística; prefere registrar cumplicidades. Em diversos momentos, a câmera parece filmar não apenas uma vencedora, mas uma musa recorrente dentro do universo criativo do diretor.
Embora a vitória em "Drag Race Brasil" funcione como eixo dramático, "A Coroa de Ruby" amplia seu olhar para discutir representatividade. Natural de Carnaíba, no sertão do Pajeú, Ruby Nox torna-se símbolo de uma geração de artistas nordestinas que historicamente permaneceram à margem dos grandes centros culturais. O documentário compreende a dimensão política dessa conquista sem transformar sua protagonista em monumento. Ao contrário, evidencia como sua arte nasce justamente do encontro entre cultura popular, teatro, performance, artes visuais e experimentação, reafirmando que a drag brasileira possui inúmeras identidades para além dos modelos consagrados internacionalmente.
Com pouco mais de vinte minutos, "A Coroa de Ruby" emociona porque entende que grandes vitórias nunca pertencem apenas a uma pessoa. Henrique Arruda transforma os bastidores de um reality em um documento sobre pertencimento, memória e resistência cultural, registrando uma artista que leva Pernambuco para o centro da cultura pop global sem abandonar o sotaque, as referências e os afetos que moldaram sua trajetória. Ao celebrar Ruby Nox, o filme também celebra toda uma cena drag nordestina que há muito tempo merecia ocupar esse lugar de protagonismo.

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