Há filmes que parecem responder uns aos outros mesmo quando separados por décadas. É o caso de "O Lugar sem Limites" (1978), de Arturo Ripstein, e "O Olhar Misterioso do Flamingo" (2025), estreia em longa-metragem do chileno Diego Céspedes. Ambos compartilham uma inquietação comum: investigar como sociedades profundamente conservadoras transformam corpos dissidentes em alvo de medo, desejo e violência. O diálogo entre as duas obras revela não apenas a permanência da transfobia e da homofobia na América Latina, mas também a força do cinema queer latino-americano em transformar essas dores em memória e resistência.
Nos dois filmes, o espaço é muito mais do que cenário. Em "O Lugar sem Limites", El Olivo, um vilarejo mexicano decadente dominado por um bordel, representa um universo sem qualquer possibilidade real de fuga. Já em "O Olhar Misterioso do Flamingo", Diego Céspedes transporta essa sensação para uma isolada comunidade mineradora no deserto chileno durante a ditadura de Augusto Pinochet. Ambos constroem verdadeiros microcosmos onde preconceito, ignorância e violência se alimentam mutuamente. O próprio Céspedes reconheceu que leu o romance "El lugar sin límites", de José Donoso, origem da obra de Ripstein, e percebe afinidades entre os dois universos.
Essa aproximação é fortalecida sobretudo na centralidade de suas personagens trans e travestis.La Manuela, interpretada magistralmente por Roberto Cobo, permanece uma das figuras mais emblemáticas da história do cinema latino-americano. Décadas depois, Céspedes apresenta Flamingo e a família da Casa Alaska como um núcleo igualmente vibrante de afeto, humor e solidariedade. Nenhuma dessas personagens existe apenas para sofrer. Ao contrário, elas irradiam desejo, sensualidade, ironia e humanidade.
Céspedes substitui a agressão direta da obra dos anos 1970, por uma poderosa alegoria: o mito de que homens adoecem ao serem olhados com desejo por pessoas queer. A invenção de uma enfermidade transmitida pelo olhar ecoa diretamente o pânico moral que cercou a epidemia de HIV/AIDS nos anos 1980, quando o simples contato com corpos LGBTQIA+ passou a ser tratado como ameaça. Em ambos os casos, o preconceito nasce da tentativa desesperada de controlar aquilo que não pode ser domesticado: o desejo.
Quase cinquenta anos separam as duas obras, mas a sensação é de continuidade histórica. "O Lugar sem Limites" abriu caminhos ao confrontar de forma inédita o machismo estrutural latino-americano e colocar uma travesti no centro de sua narrativa. "O Olhar Misterioso do Flamingo" amplia esse legado ao incorporar realismo mágico, memória da AIDS, infância e poesia visual sem abandonar o compromisso político com a dignidade de corpos marginalizados.
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