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terça-feira, 28 de julho de 2026

Leviticus (Austrália/EUA, 2026)

Adrian Chiarella transforma um dos livros mais frequentemente utilizados para justificar a homofobia em uma poderosa inversão simbólica. "Leviticus" acompanha Naim (Joe Bird), um adolescente recém-chegado a uma pequena comunidade cristã no interior da Austrália, que se apaixona por Ryan (Stacy Clausen). Depois que os dois são submetidos a um ritual de conversão religiosa, passam a ser perseguidos por uma entidade sobrenatural capaz de assumir a forma da pessoa que mais desejam: um ao outro. A partir dessa premissa engenhosa, o diretor constrói um horror romântico que utiliza o sobrenatural para materializar a violência psicológica produzida pelo fanatismo religioso e pela repressão do desejo.

O grande acerto de Chiarella está em compreender que o verdadeiro monstro nunca é apenas a criatura que ronda os protagonistas. A entidade funciona como uma manifestação física da culpa, da vergonha e do medo cultivados por uma comunidade incapaz de aceitar qualquer forma de diferença. O horror nasce justamente da perversidade desse mecanismo: quanto maior o amor entre Naim e Ryan, mais poderosa se torna a ameaça. É uma metáfora elegante para os efeitos da chamada terapia de conversão, transformando a própria intimidade dos personagens em território de terror.

"Leviticus" nunca reduz seus protagonistas à condição de vítimas. Joe Bird entrega uma interpretação delicada, marcada pela timidez e pela insegurança, enquanto Stacy Clausen constrói Ryan como alguém que encara seus sentimentos com maior espontaneidade. A química entre os dois sustenta a dimensão romântica do filme e impede que a narrativa seja dominada apenas pelo sofrimento. Chiarella demonstra enorme sensibilidade ao retratar o primeiro amor como um espaço simultaneamente de descoberta e de risco, fazendo com que cada gesto de afeto adquira enorme peso emocional.


O próprio título, retirado do livro bíblico tantas vezes mobilizado contra pessoas LGBTQIA+, é ressignificado pelo diretor como um gesto de enfrentamento. A criatura que assume o rosto da pessoa amada traduz de forma visual o trauma da homofobia internalizada, enquanto o ambiente religioso revela como instituições podem transformar afeto em pecado e desejo em punição. Ainda assim, Chiarella evita o fatalismo. 


Tecnicamente, "Leviticus" aposta numa mise-en-scène contida e extremamente eficiente. A fotografia, de Tyson Perkins, explora paisagens rurais áridas e espaços religiosos opressivos, enquanto a montagem  privilegia o suspense gradual em vez de sustos fáceis. A criatura permanece parcialmente oculta durante boa parte, aumentando a sensação de inquietação. Embora as influências de "It Follows", "The Witch" e até do horror psicológico japonês sejam perceptíveis, Chiarella consegue desenvolver uma identidade própria ao colocar o terror sempre a serviço das emoções dos personagens, nunca do espetáculo gore.

Em sua estreia em longa-metragem, Adrian Chiarella demonstra compreender o potencial político do horror. "Leviticus" utiliza monstros, possessões e perseguições para falar sobre vergonha, exclusão e sobrevivência, mas encontra sua maior força justamente naquilo que resiste ao medo: o amor entre dois jovens que se recusam a aceitar a violência como destino inevitável. O resultado é um filme que dialoga com o melhor do horror contemporâneo sem abrir mão da emoção.


sábado, 16 de abril de 2022

Mapas para as Estrelas(Maps to the Stars, Canadá/EUA, 2014)



O nome de David Cronenberg é quase um sinônimo de horror corporal. Mas Mapa Para as Estrelas é o tipo de horror com um dano humano metafórico. O filme é esculpido no coração de Hollywood, apresentando-nos a um conjunto de estrelas, aspirantes e veteranos, cujas vidas colidirão em um clímax fatídico.

Havana Segrand (Julianne Moore) é uma atriz egocêntrica que não suporta o fato de que sua fama está desaparecendo. Ela procura a ajuda do psicoterapeuta/guru das estrelas Stafford Weiss (John Cusack), um idiota igualmente egocêntrico.

Seu filho, Benjie (Evan Bird) é um viciado em drogas, estrela infantil, mistura de Macaulay Culkin com o jovem Justin Bieber, que tem a vida administrada pela mãe Christina (Olivia Williams). A vida dessas pessoas hipócritas e aparentemente bem-sucedidas será virada de cabeça para baixo com a chegada da misteriosa Agatha (Mia Wasikowska).

A garota de aparência amigável, porém coberta de cicatrizes, aceita um emprego como assistente pessoal de Havana, apenas para se descobrir carregando um segredo obscuro. A pessoa mais normal neste show de horrores é Jerome Fontana (Robert Pattinson), um motorista de limusine esperando por sua descoberta como roteirista.

O roteiro de Bruce Wagner é uma peça de cinismo que, de maneira nada sutil, faz pouco caso da aparência glamorosa da vida luxuosa de Hollywood. Duro e amargo, evocando clássicos como Crepúsculo dos Deuses(1950) ou até mesmo Showgirls(1995).


Mapas para as Estrelas é satírico, levando a auto-obsessão, e a cura no desejo pela fama de Hollywood a lugares absurdos e um final de cair o queixo. E por mais sombrio que isso pareça, vê-los correndo em direção a isso é surpreendentemente divertido e, às vezes, comovente.


Juliane Moore é aclamada pelos riscos que corre no cinema. Aqui ela vai ficar nua, vai fazer sexo com homens e mulheres. Ela vai dizer coisas horríveis como o roteiro exige. Com seu cabelo descolorido cruelmente, natureza petulante e ilusões deliberadas, Havana Segrand é egoísta. Ela é vil. Ela não mede consequências.

Mapas para as Estrelas é desafiador e ousado. Claro que é David Cronenberg, que se diverte em dar ao público algo doentio e faz desta vez com um olhar crítico para as celebridades e sua sede por sucesso, o que contribui para um demente, mas  extremamente espirituoso, mítico, macabro e impiedoso filme. 


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Albert Nobbs(Reino Unido/França/EUA/Irlanda, 2011)


Glenn Close tem o papel-título em Albert Nobbs, de Rodrigo Garcia, como uma inglesa do século XIX que se passa por homem desde que sua infância culminou em estupro coletivo. Nas muitas luas desde então, Albert trabalhou como garçom, enchendo discretamente copos de água e se permitindo um pequeno e reprimido meio sorriso, talvez, quando alguém pede uma segunda sobremesa.

Albert tem um pequeno sonho triste, abrir uma tabacaria e um dia se aposentar no mar. Mas então, pouco a pouco, sob a influência de um pintor de casas urbano e sábio, Mr. Page (Janet McTeer), que abre sua camisa de trabalho para revelar que ele também é uma mulher, Albert começa a sonhar ainda mais alto. Albert começa a sonhar em ter uma esposa.


À procura de uma candidata a esposa digna, Albert se fixa em uma colega de trabalho, uma jovem garçonete (Mia Wasikowska) décadas mais nova, alguém que ele não conseguiria mesmo se fosse um homem. Ela não tem ideia de que ele é uma mulher; ela só pensa que ele é um esquisito, e é difícil não concordar.

O desejo negado tem seu elemento de sombra perturbador e, enquanto Albert sonha com uma vida plena, sua ilusão e repressão irradiam seu desconforto. O mais notável do filme, no entanto, é a entrega de Glenn Close, que além de protagonizar, coroteiriza e produz. A primeira vez que ela representou o personagem, foi em 1982, num espetáculo Off Broadway.

A equação poética desse tipo de conto, que funcionaria metaforicamente e sugestivamente em outro meio, torna-se literal, melancólica e real na tela. Há um fator de descontentamento inegável na personagem e na atuação detalhada e forte de Close.


Albert é uma pessoa convincente, misteriosa e que está alerta para os outros de uma maneira quase enlouquecedora. O filme tem uma atmosfera benevolente que ocasionalmente ganha vida em cenas ensolaradas na praia ou na magnética personagem de Janet McTeer.