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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Wild Foxes (La Danse des renards, Bélgica/França, 2025)

"Wild Foxes", de Valéry Carnoy, é ambientado em um internato esportivo de alta performance, o longa acompanha Camille (Samuel Kircher), um jovem boxeador promissor que sobrevive a um acidente graças à intervenção do melhor amigo, Matteo (Fayçal Anaflous). A recuperação parece bem-sucedida, mas uma dor misteriosa começa a se espalhar por seu corpo, ameaçando não apenas sua carreira, mas a própria identidade construída em torno da força e da invulnerabilidade.

O primeiro grande mérito de Carnoy é subverter os clichês do cinema esportivo. Não há aqui a trajetória clássica do atleta rumo à glória, mas um processo de desintegração física e emocional. O boxe funciona menos como espetáculo e mais como ritual de masculinidade, um espaço onde dor, disciplina e silêncio são tratados como virtudes absolutas. Quando Camille já não consegue controlar o próprio corpo, ele deixa de corresponder ao ideal do “campeão” e passa a ocupar uma posição de estranhamento dentro daquele universo. A doença, nunca reduzida a um diagnóstico, transforma-se em metáfora para a crise de identidade masculina na passagem da adolescência para a vida adulta.

A relação entre Camille e Matteo é outro mérito do do filme. Carnoy evita definir essa dinâmica de forma explícita, mas constrói uma intimidade carregada de tensão, dependência e ciúme. O acidente inicial cria um vínculo quase traumático entre os dois, e cada gesto posterior parece atravessado por sentimentos que excedem a amizade esportiva convencional. O subtexto queer emerge justamente dessa ambiguidade: o filme observa como ambientes hipermasculinos frequentemente reprimem qualquer forma de afeto que possa ameaçar a performance da virilidade.

A fotografia, de Arnaud Guez, reforça essa leitura com precisão. Os closes nos corpos suados, nos hematomas, nas mãos enfaixadas e nos rostos exaustos transformam o boxe em uma experiência sensorial e quase tátil. Há momentos em que o contato físico violento dos treinos se converte em uma forma de intimidade involuntária, produzindo uma atmosfera de homoerotismo latente sem jamais abandonar o realismo

"Wild Foxes" é um filme sobre o corpo como espaço de dissidência. Quando Camille já não consegue performar a masculinidade exigida pela academia, ele é forçado a confrontar quem existe por trás do atleta, do lutador e do “vencedor”. Valéry Carnoy transforma a dor em linguagem cinematográfica e encontra beleza justamente naquilo que o esporte costuma tentar esconder: a fragilidade.