Mostrando postagens com marcador Wash Westmoreland. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wash Westmoreland. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Heartstopper Para Sempre (Hearstopper Forever, Reino Unido, 2026)

Poucas produções recentes conseguiram acompanhar o amadurecimento de seu público com tanta delicadeza quanto "Heartstopper". Depois de três temporadas, "Heartstopper Para Sempre", dirigido por Wash Westmoreland e escrito por Alice Oseman, baseado em sua graphic novel, encerra a jornada de Nick Nelson (Kit Connor) e Charlie Spring (Joe Locke).  Agora, às vésperas da universidade e diante da perspectiva de um relacionamento à distância, os dois precisam aceitar que crescer também significa conviver com dúvidas, despedidas e mudanças inevitáveis.

Se a série sempre foi marcada pelos grafismos delicados que ilustravam emoções e descobertas, o longa preserva esse recurso, mas o insere em uma proposta visual muito mais cinematográfica. A fotografia, de James Rhodes, aposta em uma luz mais naturalista e sofisticada, enquanto a narrativa dividida pelas quatro estações do ano transforma primavera, verão, outono e inverno em estados emocionais. Cada capítulo reflete inseguranças, autoconfiança, desejos e o medo do futuro, numa construção elegante que acompanha a passagem definitiva da adolescência para a vida adulta.

Alice Oseman desloca o centro dramático da relação. Depois de acompanhar a recuperação de Charlie ao longo das temporadas, é Nick quem passa a enfrentar suas próprias angústias diante da separação iminente e das responsabilidades da vida universitária. O filme compreende que o amadurecimento nunca acontece de maneira linear: quando um encontra estabilidade, o outro vacila. As cenas de intimidade entre os dois também evoluem com naturalidade, incorporando sexo, pele e desejo com enorme ternura, sem abandonar a doçura que sempre definiu a franquia.

Embora Nick e Charlie permaneçam como eixo central, o roteiro encontra espaço para que os demais personagens tenham seus próprios momentos. Charlie cria um ambiente de acolhimento para estudantes LGBTQIA+ dentro da escola, reforçando que a luta contra a homofobia institucional continua sendo necessária mesmo em espaços aparentemente seguros. Durante um breve afastamento do casal, Elle, Tao, Tara, Darcy, Isaac e os demais voltam a respirar individualmente, enquanto a narrativa ainda encontra espaço para abordar direitos das pessoas trans e incluir uma Parada do Orgulho. É pouco para um elenco tão querido, mas suficiente para lembrar que "Heartstopper" sempre foi também uma história sobre comunidade e amizade.

A trilha sonora segue em pleno diálogo com a franquia. Nomes como Sufjan Stevens, Billie Eilish, Maggie Rogers, The National, Baby Queen, Royel Otis, Middle Kids, Orla Gartland e Gigi Perez os personagens sem jamais soar como uma playlist montada apenas para agradar algoritmos. Há ainda um simpático gesto metalinguístico quando os amigos assistem a "Colette",do próprio Wash Westmoreland, além da inevitável estranheza causada pela substituição de Olivia Colman por Anna Maxwell Martin no papel de Sarah Nelson.

"Heartstopper Para Sempre" entende que seu maior desafio não era surpreender, mas concluir uma história que acompanhou toda uma geração de jovens LGBTQIA+. O filme reconhece que o primeiro amor pode sobreviver ao tempo, desde que aceite também a transformação. Mais maduro, visualmente mais refinado e emocionalmente mais complexo, o encerramento entrega exatamente o que promete: uma despedida afetuosa para personagens que cresceram diante do público e deixaram uma marca definitiva na representação queer contemporânea, sem perder a esperança que sempre fez de "Heartstopper" um fenômeno tão necessário.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Colette(EUA/Reino Unido/França, 2018)


Colette é um drama biográfico sobre a talentosa novelista francesa Sidonie-Gabrielle Colette, aqui representada pela sempre encantadora atriz inglesa Keira Knightley. O roteiro, coescrito pelo diretor Wash Westmoreland, de Para Sempre Alice( 2014) , e seu falecido marido Richard Glatzer, concentra-se inicialmente nos primeiros anos da autora passado em sua cidade natal na Borgonha e, em seguida, principalmente em Paris em 1893, para onde ela se muda com seu infiel , marido ladrão de talentos parisiense, Willy (Dominic West), que busca o sucesso na literatura a qualquer custo.

Em uma sociedade dominada por homens, Willy leva todo o crédito pela escrita inteligente de sua esposa sem esboçar uma única linha. Seu primeiro livro, Claudine em Paris, é um grande sucesso, mas como um empresário literário vaidoso e ganancioso, ele quer mais e não pretende parar por aí. Na pressa de cumprir os prazos de publicação, ele tranca abusivamente sua esposa em uma sala para forçá-la a escrever um novo romance.

No entanto, e para sua inquietação, Colette não é do tipo submisso, rebelando-se contra o marido e o sistema, e se aventurando em casos lésbicos com a ardente socialite americana Georgie Raoul-Duval (Eleanor Tomlinson) e a perspicaz  Missy (Denise Gough), que a incentiva a usar roupas masculinas. A repentina revelação de que Georgie também divide sua cama com Willy se torna a fonte de inspiração de Colette para seu próximo sucesso literário: Claudine en Ménage.


A deslumbrante fotografia, de Giles Nuttgens, nos convida ao exuberante mundo iluminado por velas da França do final do século XIX, contrastando a densa vegetação ao ar livre do campo com os interiores altamente decorados de Paris. Ambos os locais são sedutoramente pródigos na riqueza dos detalhes banhados por uma luz dourada e suave. A própria Colette, contrasta cada vez mais com os dois cenários, muito curiosa e independente para a vida tranquila do campo, muito honesta e não confinada para as convenções da cidade.


Conforme apresentado aqui, o sexo é quase uma necessidade como combustível para os romances de Claudine que inicialmente são baseados na própria infância de Colette no país, mas que se tornaram descaradamente sexuais virando uma sensação literária. 

Willy e Colette estavam muito à frente de seu tempo escrevendo romances picantes e até mesmo foram precursores de franquias quando as obras são transformados em peças e mais livros são exigidos, até mesmo com o corte de cabelo bob de Colette estabelecendo uma tendência.

O problema aqui era que tudo isso era uma pretensão de que Willy os havia escrito e, inevitavelmente, Colette quer ser reconhecida como a verdadeira autora que vai além dos limites quando eventualmente foge com sua amante lésbica pelo resto de seus dias. Na tentativa de fama, ela tenta a carreira de atriz e expõe os seios no palco, escandalizando a plateia.


O longa enfrenta o mesmo desafio em todos os filmes sobre escritores: não há nada menos cinematográfico do que alguém sentado em uma mesa com juntando palavras, mesmo quando é com uma elegante caneta-tinteiro em um lindo cenário da belle époque. Teria dado mais profundidade à história, especialmente para o público americano, que pode saber vagamente que Colette escreveu a história que inspirou Gigi(1958), para fornecer mais um sentido de seu trabalho, sua franqueza e modernidade.


Mas a química é palpável entre Knightley e West, estejam eles apaixonados ou separados, e a atriz britânica dá uma de suas melhores performances como uma garota com espírito livre e grande talento para se tornar uma mulher com ferocidade e voz.