Com a aguardada chegada de “American Horror Story: 13”, o retorno de Jessica Lange e a presença até de John Waters, me arrisquei a uma coisa perigosa: ranquear as 12 temporadas anteriores da série que é um dos meus maiores guilty pleasures. Olhei para “AHS” a partir de uma pergunta: o que a série fez, ao longo desses anos, com a representação queer e com as questões sociais que atravessam o horror? Mas este também é, assumidamente, um ranking de gosto pessoal.
“Delicate” talvez seja a temporada em que a dimensão queer menos consegue se tornar parte estrutural do horror. Maternidade, paranoia, reprodução, controle do corpo feminino, Kim Kardashian e uma conspiração que transforma a gravidez em horror são os grandes temas. Ryan Murphy parece estar mais interessado em exaltar o ‘talento’ de suas protagonistas. No fim, mesmo com referências interessantes, nada dá muito certo.
11. “Double Feature”
“Double Feature” tinha duas oportunidades enormes de construir uma leitura queer e uma forte alegoria sua dependência química, mas acaba se dispersando. “Red Tide” transforma talento, ambição e criação artística em mercadoria, enquanto “Death Valley” trabalha com reprodução, corpos, teorias de conspiração e extraterrestres. São ideias que poderiam render muito, mas a temporada nunca encontra uma conexão forte entre elas. Tem Macaulay Culkin e homens grávidos. É Camp, mas vira piada.
10. “1984”
“1984” é uma das queridinhas de muita gente. Funciona muito bem como exercício de estilo, homenagem ao slasher, brincadeira com os códigos dos anos 1980 e desfile de corpos, violência, sexo e camp. O problema, para mim, é que o exercício metalinguístico não funciona, embora a espiral de mortes, tenha algo a dizer sobre a sociedade.
9. “Apocalypse”
“Apocalypse” tem uma quantidade impressionante de material queer porque carrega consigo a herança de “Murder House” e, principalmente, “Coven”. Mas existe uma diferença entre ser culturalmente queer e produzir uma discussão nova. Evan Peters interpreta um personagem gay e há ainda um clã de bruxos sexualmente ambíguo. O prazer está no reencontro, na referência, no fan service. É deliciosamente camp. É muito Ryan Murphy.
Aqui entra Lady Gaga, e seria impossível falar de “Hotel” sem ela. A Condessa é praticamente uma fantasia queer de glamour, sexo, poder, moda e monstruosidade. Mas é Liz Taylor (Denis O'Hare) quem torna “Hotel” especialmente importante neste ranking. A personagem é uma mulher trans cuja trajetória ganha relevância durante a trama. “Hotel” é irregular, mas é também a temporada mais sexual da série. Sua importância para a representação queer é difícil de ignorar.
7. “Cult”
“Cult” pega a ansiedade de uma sociedade polarizada e transforma tudo em horror. A relação entre Ally e Ivy coloca um casal de mulheres no centro de uma história sobre medo, manipulação, extremismo e paranoia. A sexualidade participa diretamente das relações de poder que estruturam a temporada. É socialmente muito mais incisiva, e politicamente mais relevante, do que parece à primeira vista. E continua muito atual na América de hoje. E tem Evan Peters em múltiplos papeis incluindo Jesus Cristo e Andy Warhol!
6. “Roanoke”
“Roanoke” é onde o jogo de linguagem fica muito interessante. Documentário, reconstituição, atores interpretando pessoas reais, pessoas reais interpretando a si mesmas e, depois, reality show. Tudo vira um grande reality show dos horrores. A estrutura brinca com quem controla uma narrativa e com a maneira como uma identidade pode ser construída, vendida e consumida pelos outros.
E, tem um bônus importante: é graficamente a temporada mais violenta e perturbadora da série, que diga o falecido Leslie Jordan.
5. “Freak Show”
“Freak Show” talvez seja uma das temporadas em que “American Horror Story” mais diretamente pergunta: quem decide quem é um monstro? O circo reúne corpos e pessoas consideradas anormais pela sociedade. É comunidade, mas também exploração. É refúgio, mas também show. Os marginalizados encontram ali uma possibilidade de pertencimento.“Freak Show” entende que o monstro não nasce necessariamente monstruoso. Muitas vezes, ele é produzido pelo olhar de quem precisa colocar o outro fora da norma.
4. “Murder House”
“Murder House” estabelece uma das grandes obsessões de “American Horror Story”: a família considerada normal é, muitas vezes, o verdadeiro lugar do horror. A casa suburbana, o casamento, a maternidade, a masculinidade, a sexualidade e o desejo aparecem todos contaminados. A própria estrutura da família nuclear heteronormativa começa a desmoronar diante dos fantasmas e dos segredos. É o começo de uma linguagem que depois seria radicalizada pela série. Além disso a introdução do Rubber Man, um personagem recorrente, vestido de látex que dialoga diretamente com a cultura LGBTQIA+.
“NYC” é uma das temporadas em que o horror deixa de ser apenas uma alegoria. A história dos homens gays de Nova York no início dos anos 1980, a violência, a epidemia de AIDS e a indiferença institucional fazem com que o monstro seja muito menos fantástico do que normalmente esperamos da série. Aqui, o terror nasce de uma realidade histórica: pessoas desaparecendo, corpos adoecendo, comunidades devastadas e uma sociedade que demorou a responder à crise. Os dois últimos episódios são APOTEÓTICOS!
2. “Coven”
Como “Coven” não está em primeiro?
Porque “Coven” provavelmente é a temporada mais culturalmente queer de “American Horror Story”. Tudo nela parece construído para uma plateia queer: o camp, o figurino, o excesso, as divas, a teatralidade, as mulheres poderosas, a competição, o melodrama, a sexualidade e o humor. Quem não ama bruxas? Mas este também é um ranking pessoal, e existe outra temporada que, para mim, consegue fazer da experiência queer uma parte ainda mais profunda do próprio horror.
1. “Asylum”
E agora vem “American Horror Story: 13”. Depois de anos sem Jessica Lange e com um elenco que reúne novamente Sarah Paulson, Evan Peters, Angela Bassett, Kathy Bates, Emma Roberts, Billie Lourd, Gabourey Sidibe e tantos outros rostos fundamentais da franquia, a nova temporada parece querer fazer mais do que recuperar personagens. Ela recupera a própria identidade de “AHS”.
Todos esses personagens icônicos parecem voltar para nos lembrar de uma coisa: por trás de bruxas, fantasmas, vampiros, alienígenas, assassinos e demônios, “American Horror Story” sempre teve uma pergunta muito mais incômoda:
quem é que a sociedade decidiu transformar em monstro?
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