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sábado, 26 de setembro de 2026

GUIA QUEER: FESTIVAL DO RIO 2026

O Festival do Rio acontece entre 1º e 11 de outubro e, mais uma vez, a programação internacional oferece um panorama especialmente fértil para quem procura no cinema histórias sobre desejo, sexualidade, gênero, identidade, masculinidades, corpos dissidentes e formas alternativas de existir. A presença queer não está concentrada em uma única mostra ou em uma definição rígida de “filme LGBTQIA+”. Ela aparece em dramas históricos, romances, terrores, comédias, animações, documentários e histórias de formação.

E existe um ponto de partida praticamente inevitável: “A Bola Preta” (“La Bola Negra”), de Javier Calvo e Javier Ambrossi, escolhido para a Gala de Abertura. O filme atravessa três momentos da história espanhola, em 1932, durante a Guerra Civil e em 2017, conectando três homens através do desejo, da sexualidade, da dor e de um silêncio que atravessa gerações. Inspirado em uma obra inacabada de Federico García Lorca, o longa ganhou o prêmio de Melhor Direção em Cannes e chega ao Rio cercado por uma expectativa enorme. 


DESEJO, AMOR E MASCULINIDADES

O desejo masculino aparece de maneiras muito diferentes na programação. Em “The Man I Love”, Ira Sachs retorna à Nova York do final dos anos 1980 para acompanhar Jimmy George, um performer diagnosticado com AIDS que se recusa a deixar que a doença determine sua existência. Em “Coward”, Lukas Dhont volta à Primeira Guerra Mundial para contar o romance secreto entre dois soldados. Já “Um Longo Inverno”, de Andrew Haigh, leva o desejo para uma paisagem montanhosa dos Estados Unidos dos anos 1950. E há ainda “Iván & Hadoum”, de Ian de la Rosa. Vencedor do Teddy de Melhor Longa-Metragem na Berlinale, o filme acompanha Iván, um homem trans que se apaixona por Hadoum, sua colega de trabalho nas estufas de tomate do sul da Espanha. “We'll Find Happiness”, de Léa Pool, amplia esse mapa ao colocar o amor queer diante das fronteiras e da violência dos Estados. "La Gradiva", de Marine Atlan, traz um amor não correspondido nas ruínas em Pompeia.


O BRASIL QUEER EM MUITAS FORMAS

Entre os filmes brasileiros, talvez o mais interessante seja justamente perceber como não existe uma única maneira de representar experiências não normativas. “A Margem do Rio”, de Matheus Farias e Enock Carvalho, leva o desejo masculino para os manguezais do Recife. Em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, vencedor do Queer Lion em Veneza, um jovem com deficiência trabalha em uma casa de fetiche e aceita passar por um exame médico para tentar compreender melhor o próprio corpo.  “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., com Grace Passô, coloca uma relação entre duas mulheres no centro de uma narrativa que também passa por família, religião, intolerância e pertencimento. A infância também aparece em “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Gugu está prestes a completar 12 anos e vive com a avó, enquanto enfrenta as expectativas do pai e da comunidade ao redor. Em “Amora”, a dimensão lésbica deixa de ser subtexto para ocupar o centro da narrativa. A série antológica, dirigida por Juliana Rojas e baseada na obra de Natália Borges Polesso. O Festival exibe o episódio de estreia.  E existe uma representatividade que não depende necessariamente de um romance ou de uma identidade explicitada em cena. “Ney por trás das máscaras”, de Esmir Filho, acompanha Ney Matogrosso durante a preparação para um desfile da Imperatriz Leopoldinense. "Me Deixe Ser", de Viviane D'Ávila retrata vivências intersexo no Brasil, EUA e Índia. Até o grotesco entra. “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mistura horror, humor escatológico e drama familiar para acompanhar uma mãe diante das dificuldades envolvendo seu filho não binário.


London, de Victor di Marco e Márcio Picoli

MEMÓRIA, REPRESSÃO E HISTÓRIAS QUE FORAM APAGADAS

“Barbara Forever”, de Brydie O'Connor, segue a cineasta experimental lésbica Barbara Hammer através de cinco décadas de arquivos, diários sonoros, fotografias e imagens inéditas. O filme ganhou o Teddy de Melhor Documentário em Berlim 2026. “Quem Matou Narciso?”, de Marcelo Martinessi, olha para outro momento em que sexualidade e repressão política se encontram. Ambientado no Paraguai de 1959, durante a ditadura, o filme acompanha Narciso, uma estrela de rádio que leva o rock'n'roll de Buenos Aires para o país e se transforma em símbolo de liberdade. “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaría Razo, trabalha a memória de uma maneira mais íntima. Bruno tem 11 anos quando começa a desenvolver sentimentos pelo amigo Vladimir, enquanto ao redor deles existe também o medo provocado pela epidemia de HIV. Em “Jaripeo”, de Efraín Mojica e Rebecca Zweig, a memória queer aparece em meio à cultura dos rodeios de Michoacán, onde códigos de masculinidade extremamente rígidos convivem com olhares, toques e desejos clandestinos. “Qual o Destino?”, de Assaf Machnes, leva essa discussão para Berlim. Hassan, um motorista palestino de 55 anos, conhece Amir, um jovem israelense que está explorando sua sexualidade. "A Educação de Jane Cumming", de Sophie Heldman, aborda classe, raça e sexualidade em uma sociedade dominada pelo patriarcado. E “Father, Father”, de Jake Witzenfeld, acompanha um casal gay formado por Khader e Aviv, um muçulmano e um judeu, enquanto os dois discutem a possibilidade de construir uma família em meio à guerra, à propaganda e ao extremismo político. 


O HORROR, A COMÉDIA E O CAMP

Uma das coisas mais divertidas desta programação é perceber como o cinema queer não precisa estar preso ao drama realista. “Jim Queen”, de Nicolas Athané e Marco Nguyen, talvez seja o exemplo mais escancarado. Na animação, um vírus chamado “Heterose” começa a transformar homens gays em heterossexuais.  “A Gruta” (“Bearcave”) encontra o desejo lésbico dentro de um conto quase mítico. Argyro é secretamente apaixonada por Anneta, sua amiga de infância, que está grávida e pretende deixar a vila. No horror, “Leviticus”, de Adrian Chiarella, transforma a homofobia religiosa em pesadelo literal. “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, mergulha no desejo como território de transgressão. Ed narra sua obsessão por George, enquanto Robert desenvolve uma relação perturbadora com Jack, e a própria estrutura familiar vai dissolvendo as fronteiras entre afeto, rivalidade, dependência e desejo.  E então chega “I Want Your Sex”, de Gregg Araki. Um dos nomes fundamentais do New Queer Cinema retorna com uma comédia sexual provocadora, cheia de desejo, fetiches, jogos de poder e humor. 


CORPOS, GÊNERO E A INVENÇÃO DE SI

“Rose”, de Markus Schleinzer, é ambientado no século XVII, durante a Guerra dos Trinta Anos, o filme acompanha uma pessoa que assume a identidade de um soldado para conquistar liberdade e reivindicar uma herança. Sandra Hüller recebeu o Urso de Prata por sua atuação, em Berlim. “Soy Mario” parte de outra relação com o corpo. Mario é um homem trans que trabalha como motorista de táxi e vive cercado por expectativas de masculinidade. Uma gravidez inesperada o coloca diante da possibilidade da paternidade e o obriga a reconsiderar a própria relação com o corpo. Já “Chica Checa”, de Simon Holý, aproxima gênero e família através de uma situação aparentemente cotidiana. Uma mãe viúva reencontra o filho que vive na França e descobre aspectos de sua vida que desconhecia. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, acompanha Pirati, que lidera uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans no Nepal. Ela sonha em partir com o homem que ama, mas precisa procurar uma de suas “filhas” desaparecida 

Soy Mario, de Sharon Kleinberg

GALA DE ENCERRAMENTO

No encerramento internacional do Festival, “Club Kid”, de Jordan Firstman, volta explicitamente para a cultura queer de Nova York. Peter é um promoter de festas que vive entre drogas, sexo e noites intermináveis até descobrir que tem um filho de dez anos. A chegada de Arlo coloca em choque a vida noturna, a paternidade e a possibilidade de construir uma família sem abandonar completamente a comunidade que o formou. É uma comédia dramática sobre amadurecimento, mas também sobre vulnerabilidade, afeto e família escolhida. O fato de Firstman estar simultaneamente na direção, no roteiro e no papel principal dá ao filme uma dimensão bastante pessoal.

E o Festival ainda olha para a própria história do cinema queer com uma retrospectiva inédita de Rosa von Praunheim, realizada em parceria com o Goethe-Institut. A abertura será com “Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive” (1971), marco histórico do cinema queer e da militância gay alemã, em uma seleção que reúne outros seis longas do cineasta.

Este ano o evento desenha um percurso bastante amplo. Há romances escondidos, homens tentando descobrir que tipo de masculinidade querem habitar, mulheres apaixonadas, pessoas trans reconstruindo a própria relação com o corpo, crianças procurando um lugar seguro, famílias tentando entender seus próprios filhos, histórias atravessadas pela AIDS, pela migração, pela religião e pela repressão, além de muito horror, humor, sexo e exagero. Para conferir datas, horários e locais das sessões, consulte a programação oficial do Festival do Rio. 


Club Kid, de Jordan Firstman

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

TOP 100 - 100 A0 90

100 - Vento Seco(Brasil, 2020)

Por seu atrevimento e ousadia ao narrar uma história encharcada de fetiche e homoerotismo, Vento Seco, de Daniel Nolasco, garante um lugar na lista. O filme transcorre através de uma estética fabulosa. O diretor de fotografia Larry Machado recorreu ao uso de zoons no rosto expressivo do protagonista, enquanto cria um visual neon com cores fluorescentes. 



Mais de uma década depois que a AIDS foi identificada como uma doença, Filadélfia marca a primeira vez que Hollywood arriscou um filme de grande orçamento sobre o assunto. O longa,  de Jonathan Demme, confia na fórmula segura do drama de tribunal para explorar o tema, mais do que necessário. Apesar de não trazer uma mensagem positiva o filme conta muito a seu favor com os talentos de Denzel Washington e Tom Hanks, ganhador de seu primeiro Oscar, pelo papel de Andrew Becket.


Trazendo brilho, plumas e muita maquiagem para o meio do deserto, o longa, de Stephan Elliot,  é um grito de liberdade para a comunidade queer e que inspirou não apenas obras futuras, mas disseminou para o mundo a cultura Drag. Com uma trilha sonora icônica, performances exuberantes, o longa utiliza a fórmula do road movie para traçar uma jornada de superação que nunca perde seu brilho.



Marco do new queer cinema, da representatividade negra, feminina e lésbica, Watermelon Woman, de Cheryl Dunye, é sobre uma jovem lésbica e negra que trabalha numa vídeo-locadora e faz vídeos amadores. Seu objetivo é descobrir quem foi a mulher melancia, uma atriz negra dos anos 1930, onde afrodescendentes estavam fadados a interpretar criados e escravos no cinema.

96 - Maurice(Reino Unido, 1987)

Ambientado na conservadora Inglaterra do início do século XX, Maurice é um épico queer dirigido por James Ivory, autor de Me Chame pelo seu Nome. A produção é inspirada na obra homônima de E.M. Foster, importante autor britânico que apresentava em seus livros traços autobiográficos mas que teve Maurice, apenas lançado após sua morte.



O filme, de Sean Baker, se destaca porque foi rodado exclusivamente em três iPhone 5s. Los Angeles. Véspera de Natal. Sinn Dee sai da cadeia após 28 dias e encontra no Donut Times sua melhor amiga, Alexandra. Desde então, é babado, confusão e gritaria!

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Money! Success! Fame! Glamour! Party Monster, de Fenton Bailey e Randy Barbat, celebra a cultura club kid enquanto conta a história real de Michael Alig, uma personalidade da noite nova yorkina detido por assassinar o seu traficante, Angel. O filme marcou o retorno triunfal de Macaulay Culkin, em um papel que parece feito para ele. Culkin interpreta Allig enquanto seu fiel escudeiro, James St James, é vivido por Seth Green.



Zero Patience, de John Greyson, conseguiu fazer o que parecia impossível: trazer humor e leveza para a problemática da AIDS. Para escrever o roteiro, Greyson se inspirou na história do comissário de bordo Gaëtan Dugas, um franco-canadense, apontado por levar o vírus aos Estados Unidos. Colorido, lúdico, bem-humorado e corajoso, o filme é um musical marcado por cenas icônicas e letras que levantam uma bandeira de militância e crítica social.

92 - Meu Amigo Cláudia(Brasil, 2009)


O título Meu Amigo Claudia vem do texto escrito por Caio Fernando Abreu, sobre Claudia Wonder, personalidade dissecada pelo diretor Dácio Pinheiro em seu longa, eleito melhor documentário no Festival Mix Brasil 2009, ao lado de Dzi Croquettes. Nascido Marco Antônio Abrão, o filme relata a infância difícil, a sexualidade e o processo de transição da artista..



Segundo longa do argentino Marco Berger, Ausente é diferente, e mais sombrio, de tudo o que ele faria a seguir. Ganhador do cobiçado Teddy Award, no Festival de Berlim, o filme apresenta uma premissa muito interessante, a do assédio sexual na escola, mas ao contrário, pois o assediador é um aluno. Martín(Javier de Pietro), é um adolescente de 16 anos, que desde os primeiros minutos do filme, cobiça seu professor de natação Sebastian(Carlos Echeverria).


90 - Amigas de Colégio(Fucking Amal, Suécia, 1998)



Amigas de Colégio, filme de estreia do sueco Lukas Moodysson, é uma representação poderosa e profundamente comovente das turbulências da puberdade. Agnes (Rebecka Liljeberg), de 16 anos, é uma adolescente solitária que vive na pequena cidade de Amal. Sem amigos, e sem a sua sexualidade ainda completamente fluida, ela tem uma grande atração por Elin (Alexandra Dahlstrom), uma adolescente precoce, de 14 anos, que é o sonho molhado de todo menino.


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Party Monster(EUA, 2003)


Money! Success! Fame! Glamour! Em 1998, Fenton Bailey e Randy Barbato realizaram o documentário, onde contaram a história de Michael Allig, uma personalidade da noite nova yorkina detido por assassinar o seu traficante, Angel. Anos depois, a dupla realizou o longa produzido pela World of Wonder, a mesma que hoje é responsável por RuPaul’s Drag Race.


O filme marcou o retorno triunfal de Macaulay Culkin, em um papel que parece que foi feito para ele. Culkin interpreta Allig, um jovem que veio do interior para Nova York, onde produz festas sempre acompanhado do parceiro James St James, interpretado por Seth Green.


Cheirando cocaína no café da manhã, Michael conta para James como matou Angel. Somos transpostos então à Nova York dos club-kids, clubbers que sempre muito montados faziam parte da cena da música eletrônica.


Com uma trilha icônica, somos apresentados à verdadeiros personagens da noite nova yorkina, com o DJ Keoki com quem Allig se envolve, e Peter Gatien, dono da lendária boate Limehouse, interpretado por Dylan Mc Dormett, da série American Horror Story.


Em meio à muita droga, montação e música eletrônica, o filme nos oferece momentos realmente muito divertidos, como as cenas com a drag queen Christina, interpretada por Marilyn Manson ou quando os club kids vão à um programa de TV, apresentados ao som de SuperModel of the World, da RuPaul, com a participação especial de Amanda Lepore.


Como os caminhos levados pela droga são sempre tortuosos, Michael Allig começa a decair, apesar de conhecer novos amigos como Gitsie, da sempre alternativa Cloé Sevigny. Ele está constantemente sendo cobrado pelo traficante Angel, seu fornecedor de Special K, a droga favorita feita à base de um tranquilizante para cavalos.


O início do fim começa quando o personagem vai parar no hospital por conta de uma overdose, desde então intensifica o uso, até que numa nóia fortíssima acaba matando Angel. Em uma visão, um rato é quem conta para James como tudo realmente aconteceu.


Quando ele decide ir pra Rehab junto de Gitsie já é tarde demais, Michael Allig acaba detido por assassinato. O filme termina com James St James lançando um livro, e dando uma entrevista sobre a experiência com Michael Allig. O club kid é uma personagem na noite nova yorkina até hoje. O promoter cumpriu pena até 2014, e depois acabou vários vezes envolvidos com a justiça por problemas com drogas.