“Take One”, de Wakefield Poole, ocupa um lugar singular na história do cinema queer. Realizado poucos anos após o impacto cultural de “Boys in the Sand”, o longa se apresenta como uma “docufantasia”, misturando entrevistas, performance, pornografia e experimentação formal em uma proposta que desafia fronteiras entre realidade e imaginação. Em vez de construir uma narrativa convencional, Poole convida homens gays de São Francisco a relatarem suas fantasias sexuais e, em seguida, as encena diante da câmera.
O que torna o filme particularmente fascinante hoje não é apenas seu conteúdo erótico, mas sua função como cápsula do tempo. Filmado no auge da liberação sexual gay dos anos 1970, antes da devastação da epidemia de AIDS, “Take One” registra uma comunidade vivendo seus desejos com uma liberdade raramente vista no cinema da época. Há algo profundamente emocionante em observar esses corpos e fantasias existindo sem culpa, sem tragédia e sem a necessidade de justificativas dramáticas.
Visualmente, Poole continua demonstrando o talento que já havia revelado em “Bijou”. A fotografia utiliza projeções, filtros coloridos e cenários abstratos para transformar o sexo em espetáculo imagético. Algumas sequências se aproximam da videoarte e da dança experimental, especialmente quando os corpos surgem iluminados por tons rosados, azuis ou vermelhos que os deslocam para um território onírico.
Também chama atenção a estrutura metalinguística. Aos poucos, “Take One” deixa de ser apenas um filme sobre fantasias para se tornar um filme sobre a própria realização do filme. Poole aparece em cena, a equipe é incorporada à narrativa e o longa culmina em uma sessão de exibição onde espectadores e participantes passam a interagir com a obra que acabaram de criar.
Nem tudo, porém, funciona com a mesma intensidade. Algumas fantasias possuem uma força provocativa genuína, enquanto outras parecem excessivamente longas ou menos inspiradas. Certos segmentos mantêm uma energia inventiva impressionante; outros revelam as limitações de um experimento que nem sempre consegue equilibrar sua ambição artística e sua proposta documental.
“Take One” permanece uma obra valiosa, tanto como documento histórico quanto como expressão artística. Wakefield Poole compreendia que o desejo também podia ser cinema, e filmava o sexo com uma curiosidade estética única. O resultado é um retrato vibrante da imaginação gay dos anos 1970, um filme que continua provocando, intrigando e seduzindo quase cinquenta anos depois de sua estreia.
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