segunda-feira, 22 de junho de 2026

Hotel Excelsior (Suíça/Alemanha, 2026)

 “Hotel Excelsior”, dirigido coletivamente por Liliane Ott, Jessy Moravec, Talkhon Hamzavi e Martin Skalsky, é um filme de antologia intimista que transforma um único quarto de hotel em Zurique, num palco de memórias humanas ao longo de um século.A obra é estruturada em quatro episódios interligados por um concierge enigmático, explorando temas como identidade, segredos, reconciliação e as marcas do tempo.

Os anos 1920 trazem tensão dramática com um empresário judeu fugindo do passado e a filha em busca de acerto de contas. Os anos 1970 oferecem um encontro inesperado e redentor entre uma mulher suicida e uma aliada improvável. O episódio dos anos 1990, centrado numa banda de rock envelhecida que retorna ao local de seu primeiro grande show (agora uma “prisão dourada”), injeta humor irônico e crítica à fama, revelando a banalidade por trás da imagem rebelde.

A direção colaborativa garante ao projeto muitas vozes, com cada realizador imprimindo sua sensibilidade. O elenco, multicultural e experiente (com destaques para Miriam Japp como concierge, que também desafia binarismos, Robert Hunger-Bühler e Maral Keshavarz), entrega interpretações matizadas que sustentam o tom híbrido entre drama e leveza.


O segmento contemporâneo é o destaque pela ousadia narrativa. Uma mulher iraniana e um profissional do sexo masculino unem forças num plano de golpe financeiro. Essa parceria improvável subverte hierarquias de gênero e poder, transformando o quarto num espaço de conspiração e cumplicidade. A química entre os personagens injeta suspense e acidez, ao mesmo tempo que humaniza figuras frequentemente estigmatizadas

“Hotel Excelsior" se encaixa no cinema de arte europeu contemporâneo que valoriza identidades marginais. A narrativa atual foca especialmente na dinâmica entre a mulher iraniana e o sex worker masculino, explorando fluidez relacional e a vivência à margem das convenções heteronormativas.

“Hotel Excelsior" é um filme interessante, com ambição conceitual e sensibilidade humana que compensam eventuais desequilíbrios entre os episódios. Não é um filme revolucionário, mas uma obra honesta e reflexiva sobre como os lugares guardam histórias e como, mesmo em quartos anônimos, há ecos de resistência e conexão.

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