quarta-feira, 24 de junho de 2026

De Volta à Córcega (Le Retour, França, 2023)

Catherine Corsini retorna às tensões familiares e afetivas que atravessam sua filmografia em “De Volta à Córsega”, drama ambientado no Meditarrâneo que acompanha Khédidja (Aïssatou Diallo Sagna) e suas filhas, Jessica (Suzy Bemba) e Farah (Esther Gohourou), durante um verão marcado por reencontros, segredos e feridas antigas. Quinze anos após deixar a ilha em circunstâncias traumáticas, a protagonista volta ao local onde nasceu e é obrigada a confrontar um passado que jamais deixou de assombrá-la. A diretora constrói a narrativa a partir desse retorno físico e emocional, transformando a paisagem mediterrânea em um território de memória, identidade e pertencimento.

Corsini observa as diferentes gerações de mulheres. Enquanto Khédidja carrega o peso dos silêncios e das escolhas que moldaram sua vida, Jessica e Farah vivem a descoberta dos primeiros amores, das amizades de verão e das contradições de uma terra que lhes pertence sem que elas a conheçam verdadeiramente. O roteiro, escrito em parceria com Naïla Guiguet, articula essas experiências com delicadeza, explorando também questões de raça, classe e herança cultural em uma sociedade marcada por tradições e tensões históricas. 

Há ainda uma dimensão queer sutil, mas significativa, especialmente na trajetória de uma das jovens protagonistas. Sem transformar a sexualidade em conflito central, Corsini incorpora o despertar afetivo e a descoberta do desejo como parte natural do processo de crescimento. E

Visualmente, “De Volta à Córcega” encontra sua força na relação entre os corpos e a paisagem. A fotografia captura o calor, o mar e a luz intensa do balneário, mas evita o cartão-postal turístico. A ilha surge como uma presença viva, quase um personagem, carregando fantasmas familiares, ressentimentos e promessas de reconciliação. 

“De Volta à Córcega” talvez não alcance a potência de alguns dos melhores trabalhos de Catherine Corsini, como "A Fratura" mas permanece uma obra sensível e envolvente sobre memória, identidade e reconciliação. Ao acompanhar três mulheres tentando reorganizar os fragmentos de suas histórias, o filme encontra beleza nas cicatrizes e nos reencontros, sugerindo que voltar para casa raramente significa recuperar o passado, mas sim aprender a conviver com ele. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário