"Nena", de Gabriel Ochoa, entende que a infância não é um lugar de inocência absoluta, mas um território de observação. Ambientado na Valência de 1987, o longa acompanha Marc, um menino de dez anos que passa alguns dias na casa da tia Lola enquanto seus pais enfrentam uma dolorosa separação. O que poderia ser apenas um drama familiar transforma-se em uma delicada crônica sobre descoberta, desejo e os mistérios do mundo adulto vistos através de olhos ainda incapazes de compreender completamente aquilo que testemunham.
Há uma melancolia constante atravessando o verão, não apenas pela ruptura familiar que paira sobre Marc e sua irmã Empar, mas pela sensação de que algo está mudando para todos os personagens. A chegada de Elsa, uma atriz que desperta sentimentos inesperados em Lola, introduz uma camada romântica que o filme trata com enorme sensibilidade.
O romance sáfico entre a tia Lola e Elsa é uma história de amor contada de maneira delicada, filtrada pela percepção de uma criança que talvez não compreenda completamente o que vê, mas percebe a felicidade, a tensão e a liberdade que aquela relação representa. A perspectiva de Marc é fundamental para o funcionamento do filme. Enquanto observa a aproximação entre as duas mulheres, ele próprio atravessa um processo de descoberta.
O mundo adulto surge como um espaço complexo, povoado por afetos contraditórios, desejos ocultos e verdades difíceis de explicar. Essa escolha narrativa impede que "Nena" se torne apenas uma história de amor e o transforma também em um retrato da formação de um olhar, de uma sensibilidade que começa a entender que existem muitas formas possíveis de amar.
A atmosfera nostálgica é reforçada pela fotografia luminosa de Gema Briones, que captura o calor do verão valenciano com tons suaves e acolhedores. A direção de arte de Maje Tarazona recria os anos 1980 sem transformar a década em mera coleção de referências visuais. Já a trilha de Arnau Bataller dialoga com a presença da canção "Nena", de Miguel Bosé, cuja utilização ajuda a evocar não apenas uma época específica, mas também um estado emocional marcado pela juventude, pela saudade e pela descoberta.
"Nena" é um filme sobre primeiros olhares, primeiras compreensões e primeiras liberdades. Gabriel Ochoa encontra beleza nas pequenas transformações e nos sentimentos que surgem; Entre separações familiares, amores inesperados e o despertar de novas sensibilidades na infância, o diretor realiza uma obra delicada e humana, capaz de capturar aquele momento raro em que começamos a perceber que o mundo é muito maior, mais complexo, mais fascinante e às vezes mais brutal do se imagina.
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