sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ella Solo Come Carne (Espanha, 2026)

Norberto Ramos del Val construiu uma carreira à margem da indústria espanhola, abraçando o cinema de baixíssimo orçamento, a irreverência e um espírito assumidamente "guerrilheiro". Em "Ella solo come carne", essa vocação permanece intacta. Misturando comédia ácida, horror e humor absurdo, o diretor acompanha Sofía e Minerva, duas mulheres que tentam lidar simultaneamente com uma avalanche de problemas pessoais enquanto transformam o caos em modo de vida. A premissa é deliberadamente anárquica e pouco interessada em coerência, preferindo fazer do excesso sua principal linguagem. 

O roteiro, escrito por Ramos del Val em parceria com César del Álamo, aposta numa sucessão de situações grotescas, diálogos nonsense e personagens que parecem existir permanentemente à beira do colapso. Há ecos do cinema exploitation, do humor ácido espanhol e da tradição trash inspirada por Alex de la Iglesia. Nem todas as piadas encontram o alvo, e muitas sequências parecem desnecessárias, mas existe uma convicção admirável em nunca tentar suavizar sua personalidade excêntrica. 

Rosalía Mira e Raquel Reilly sustentam boa parte da energia do filme. Suas personagens transitam entre a autoparódia e o desespero genuíno, construindo uma dinâmica marcada por neuroses, impulsividade e uma química caótica que funciona justamente porque nunca busca naturalismo. Alejandra Igualada e Eva García-Vacas completam um elenco disposto a embarcar na proposta irreverente do diretor, contribuindo para uma atmosfera em que qualquer lógica pode ser abandonada a qualquer instante. 

Tecnicamente, "Ella solo come carne" transforma suas limitações financeiras em parte da identidade visual. Repleto de sequências sáficas o filme confere uma irreverência que torna o filme provocador, e até mesmo ofensivo, ainda que também contribua para um sentimento de dispersão narrativa.

"Ella solo come carne" dificilmente converterá quem nunca apreciou o cinema de Norberto Ramos del Val. Seu humor pode soar cansativo, sua estrutura frequentemente parece improvisada e o excesso nem sempre produz bons resultados. Ainda assim, é divertido assistir a um diretor que continua filmando exatamente como deseja, sem pedir autorização ao mercado ou às tendências. Entre gargalhadas desconfortáveis, sangue, absurdos e personagens que fazem do desastre um estilo de vida, o longa reafirma a singularidade  do cinema independente espanhol.

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