Natalie Erika James confirma em "Saccharine" que o body horror continua sendo uma das ferramentas mais potentes para discutir as obsessões contemporâneas. Depois de "Relic" e "Apartment 7A", a diretora australiana mergulha em um pesadelo sobre distorção de imagem, compulsão alimentar e a indústria da magreza, transformando a busca por um corpo ideal em uma experiência sobrenatural tão perturbadora quanto tristemente reconhecível. O longa acompanha Hana (Midori Francis), uma estudante de medicina que passa a consumir cinzas humanas como parte de uma perigosa moda de emagrecimento, despertando forças que escapam ao seu controle.
O roteiro trata o horror não como algo externo, mas como uma manifestação física da vergonha, da ansiedade e da autodestruição. Hana é uma personagem constantemente em conflito consigo mesma, presa entre a necessidade de aprovação e a incapacidade de aceitar a própria imagem. A jornada da protagonista ganha contornos cada vez mais delirantes à medida que o misterioso suplemento conhecido como The Gray começa a produzir resultados.
Hana nutre uma paixão por sua treinadora Alanya (Madeleine Madden), e o filme compreende perfeitamente como desejo e identificação podem se confundir. Existe uma tensão constante entre querer estar com alguém e querer ser alguém. Natalie Erika James utiliza esse espelhamento para discutir padrões de beleza, projeções afetivas e inseguranças corporais dentro de uma perspectiva sáfica.
"Saccharine" é um banquete grotesco. A fotografia, de Charlie Sarroff, alterna tons vibrantes e quase açucarados com imagens de decomposição, carne e deterioração. A diretora constrói um universo sensorial onde luz, textura e som parecem se infiltrar sob a pele.
Ao mesmo tempo, o longa encontra relevância ao dialogar diretamente com a cultura das dietas milagrosas e dos medicamentos para perda de peso que dominam as redes sociais. Sem recorrer ao moralismo, o filme desmonta a promessa de felicidade vendida pela indústria do emagrecimento. A cada quilo perdido, Hana parece se afastar ainda mais de si mesma. O horror nasce justamente dessa lógica cruel que transforma corpos em projetos intermináveis de aperfeiçoamento. Foi algo que Ryan Murphy TENTOU fazer, em "The Beauty".
Natalie Erika James entrega um horror visceral, queer e emocionalmente devastador, sustentado por uma atuação corajosa de Midori Francis e por uma direção que transforma inseguranças íntimas em imagens que ficam na retina. Entre fantasmas famintos, cinzas humanas e corpos em transformação, o filme encontra algo muito mais assustador do que qualquer criatura sobrenatural: a violência silenciosa que tantas pessoas dirigem contra si mesmas todos os dias.
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