quarta-feira, 6 de maio de 2026

Surfacing (Canadá, 2026)

“Surfacing”, dirigido por Christian Smith, segue Cole (Damian Romeo), um jovem que vive no limite entre anestesia e colapso. Afundado em depressão, ele alterna sessões de terapia com fugas autodestrutivas, sexo casual, uso de substâncias e noites em um circuito quase subterrâneo que funciona como válvula de escape. É nesse estado de deriva que ele se envolve na vida de sua terapeuta, Jessica (Cindy Sampson), e se aproxima de Jackson (Johnathan Sharp), conexão que desloca a narrativa para um território mais íntimo e perigoso.

O filme é ancorado  em temas já familiares ao cinema queer, desejo, trauma, pertencimento, mas encontra alguma força ao situar o romance entre Cole e Jackson dentro de um espaço de instabilidade emocional. Não há idealização aqui: o vínculo surge atravessado por dependência, impulsividade e uma necessidade urgente de afeto. O amor aparece menos como redenção e mais como tentativa, como algo que pode tanto salvar quanto aprofundar a queda.

O roteiro é assinado por Johnathan Sharp, que também interpreta Jackson. Essa sobreposição entre escrita e atuação imprime uma sensação de proximidade com o material, especialmente nas cenas em que o filme desacelera e permite que os personagens simplesmente existam. Ainda assim, o texto não escapa completamente de certas fórmulas do drama indie, especialmente na maneira como articula seus pontos de virada emocionais.

A saúde mental é o ponto mais relevante da narrativa. Cole não é apenas um protagonista em crise; ele é definido por essa crise. O filme explicita isso ao associar sua depressão a comportamentos autodestrutivos, o uso de sexo e drogas como anestesia, a resistência à terapia, a dificuldade de sustentar vínculos. Ao mesmo tempo, há um risco na forma como a trama aproxima demais as relações terapêuticas e afetivas, tensionando limites éticos sem necessariamente aprofundar suas implicações.

Na direção, Smith aposta em um registro íntimo e melancólico, com ritmo deliberadamente lento e foco nos corpos e rostos. A câmera reflete o estado interno de Cole. Essa escolha funciona ao criar imersão, mas também evidencia uma limitação: a falta de variação estética e rítmica faz com que o filme, por vezes, pareça emocionalmente uniforme,  preso a uma única intensidade.

“Surfacing” não é um filme que reinventa suas bases, mas que se destaca por momentos de vulnerabilidade crua. Ao articular depressão, desejo e autodestruição, ele propõe um olhar honesto, ainda que irregular, sobre o esforço de se conectar quando tudo em volta (e dentro) insiste em afundar. E o mais importante, ele dá a quem precisa um sentimento de esperança.



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