segunda-feira, 1 de junho de 2026

Something Still (EUA, 2026)

“Something Still”, curta-metragem dirigido por Ariel Mahler e escrito por John Brodsky, transforma o fim de um relacionamento em um doloroso exercício de arqueologia emocional. Com Zane Phillips, o filme acompanha um homem que retorna ao apartamento que dividia com o ex-namorado e se vê cercado por lembranças que insistem em permanecer vivas. O espaço físico torna-se um território de fantasmas afetivos, onde cada objeto parece carregar as marcas de uma história interrompida.

A premissa poderia facilmente descambar para o melodrama, mas Mahler opta pela contenção. O que interessa não é apenas o sofrimento da separação, mas as pequenas fissuras que levaram ao rompimento. Aos poucos, a narrativa revela como um encontro sexual inicialmente casual entre o casal e um terceiro homem desencadeou sentimentos inesperados, expondo diferenças irreconciliáveis sobre monogamia, poliamor e os limites da intimidade.

O roteiro de John Brodsky apresenta personagens vulneráveis, tentando navegar desejos que nem sempre conseguem nomear. A discussão sobre relacionamentos abertos surge de forma madura e dolorosamente humana, mostrando que os conflitos não nascem necessariamente da falta de amor, mas das expectativas incompatíveis que cada pessoa deposita em uma relação.

Mais do que uma história sobre separação, “Something Still” fala sobre as marcas que os relacionamentos deixam em nós. O filme entende que o amor raramente desaparece de uma vez. Ele permanece nos cantos da memória, nos hábitos compartilhados e nos lugares que continuam existindo mesmo depois que a relação termina. Essa dimensão emocional faz do curta uma experiência particularmente identificável para espectadores queer, que encontrarão ali uma representação honesta de afetos contemporâneos.

Delicado, melancólico e emocionalmente preciso, “Something Still” encontra força na intimidade. Sem grandes gestos ou discursos, Ariel Mahler e John Brodsky constroem um retrato sincero sobre amor, desejo e perda, lembrando que algumas histórias acabam, mas certas emoções continuam ecoando muito depois do último adeus.


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