Em “Bloody Tennis”, Nikias Chryssos transforma uma academia de tênis em um pesadelo de aparência impecável. Sophie (Sandra Guldberg Kampp) chega a uma instituição de elite no sul da Europa para tentar se tornar uma grande jogadora, mas encontra um ambiente em que disciplina, competição e obediência escondem alguma coisa muito mais perturbadora. A estrutura lembra imediatamente “Suspiria”, referência assumida pelo próprio diretor, mas Chryssos também mistura o horror de internato com a energia de filmes adolescentes e esportivos como “Mean Girls” e “Bring It On”. É um filme que desde o início entende o quanto existe de violência em ambientes construídos para produzir excelência.
O tênis é uma escolha interessante porque transforma a competição em uma experiência quase ritualística. Diferentemente de esportes de contato, o adversário está sempre do outro lado da quadra, separado por uma rede, mas cada movimento carrega uma espécie de agressividade silenciosa. Chryssos explora justamente essa contradição entre a elegância do esporte e a brutalidade necessária para vencer. A academia funciona como uma instituição total, onde o desempenho vale mais do que a humanidade e perder deixa de ser apenas uma derrota esportiva para se transformar em ameaça física.
É nesse espaço de controle e mulheres que o longa encontra uma representação sáfica nem tão sutil. Sophie se aproxima de Bana (Tracy Gotoas), uma das outras jogadoras, e o romance entre as duas nasce justamente dentro de um ambiente que exige que qualquer distração seja eliminada. O desejo aparece como uma possibilidade de intimidade, vulnerabilidade e reconhecimento em meio a uma estrutura construída para transformar meninas em máquinas competitivas.
“Bloody Tennis” inteligentemente associa o treinamento esportivo a uma espécie de domesticação do corpo feminino. As jogadoras precisam controlar peso, força, comportamento, emoções e desejo. Tudo aquilo que escapa à performance ideal passa a ser tratado como fraqueza. O horror corporal nasce justamente daí, da transformação de uma lógica esportiva reconhecível em uma máquina grotesca de produzir corpos obedientes. Sangue, feridas, fome, animais, entranhas e outras imagens repulsivas fazem com que o corpo deixe de ser instrumento de vitória e passe a revelar aquilo que a instituição tenta esconder.
O filme também sabe ser deliciosamente exagerado. Elina Löwensohn transforma Mary Tyrone em uma figura quase caricatural de autoridade, ao mesmo tempo maternal, paterna, médica e monstruosa, enquanto o ambiente inteiro parece operar segundo regras próprias. Chryssos não procura esconder suas referências, mas brincar com elas. O resultado é uma espécie de horror europeu camp, ainda que o filme nem sempre consiga equilibrar perfeitamente o grotesco, o suspense e a crítica à cultura da alta performance.
“Bloody Tennis” não constrói uma grande mitologia sobre o esporte, mas usa o tênis como linguagem para falar de desejo, disciplina e violência. A quadra se transforma em uma extensão da instituição, e a competição passa a significar muito mais do que ganhar uma partida. Sophie precisa decidir até onde está disposta a ir para conquistar aquilo que deseja, mas também precisa descobrir o que acontece quando a sobrevivência exige abandonar justamente aquilo que a torna humana.