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sábado, 26 de setembro de 2026

Contos de Uma Andarilha Urbana (Brasil, 2025)

“Contos de uma Andarilha Urbana” começa como uma história de encontros, mas logo deixa claro que seu verdadeiro assunto é o deslocamento. Eloise (Thaís Igari) é uma mulher imortal que atravessa São Paulo registrando histórias com sua handycam, enquanto Lola (Leena Santos) é uma jovem fotógrafa frustrada com os rumos da própria vida. Quando as duas se encontram, a diferença parece absoluta: uma tem todo o tempo do mundo, a outra sente que está ficando para trás. É nessa contradição que o filme dirigido por Leena Santos, Lady Jill e LuPi Rodrigues encontra delicadeza. “Eu acredito que o filme, no fim do dia, é exatamente sobre o quão breve a vida é”, explica Leena. A imortalidade de Eloise deixa de ser apenas um elemento fantástico e passa a funcionar como contraponto à ansiedade de uma geração que vive comparando sua trajetória com a dos outros. Se Lola tem pressa para viver, Eloise descobriu o problema de apenas observar. “Se você só conta/ouve histórias, mas não participa delas, será que viveu de verdade?”, pergunta a diretora.

Essa ideia ganha força porque São Paulo não aparece como simples pano de fundo. A Liberdade pulsa, interfere, acolhe e também engole os personagens. Antes das filmagens, a equipe percorreu o bairro, mapeou ruas, observou moradores, comerciantes e turistas e transformou essa pesquisa em matéria cinematográfica. LuPi Rodrigues chegou a passar três semanas explorando a região e desenhando um mapa dos lugares que poderiam entrar no filme. Para ele, a Liberdade é “um respiro numa cidade tão acelerada onde tudo é urgente”. Já Lady Jill queria estabelecer com São Paulo uma relação próxima daquela que Wong Kar-wai constrói com Hong Kong, tratando a cidade como palco e personagem ao mesmo tempo. Não por acaso, a experiência de cada diretor diante da metrópole também aparece no filme: Leena nasceu em São Paulo e sempre viu a cidade como casa; Jill encontrou nela um lar; LuPi, vindo de Brasília, ainda mantém uma relação de amor e ódio com o caos paulistano. Lola nasce  desse conflito, alguém que pode ser engolida pela cidade até descobrir que talvez seja possível transformá-la em lar através das pessoas que encontra.


As referências deixam evidente que “Contos de uma Andarilha Urbana” não tenta esconder suas filiações. O filme nasce do mumblecore de Greta Gerwig, Noah Baumbach e Joe Swanberg, passa por John Cassavetes e encontra em Wong Kar-wai uma inspiração decisiva para transformar cidade, cor e improvisação em elementos narrativos. Lady Jill acrescenta Mika Ninagawa e Shunji Iwai, enquanto LuPi cita “Chungking Express”, “In the Mood for Love” e “Hannah Takes the Stairs”. A mistura ajuda a explicar uma obra que prefere a espontaneidade ao acabamento excessivamente polido. Quase não havia roteiro: Leena tinha beats fundamentais, mas os diálogos foram improvisados durante as filmagens, enquanto as relações entre Lola e suas amigas nasceram de exercícios realizados nos ensaios. “Todo mundo contribuiu nisso”, conta a diretora. O resultado é um filme que preserva algo de descoberta, como se os próprios personagens ainda estivessem tentando entender quem são enquanto a câmera os acompanha.




Essa liberdade também está ligada à maneira como o longa foi produzido. “Contos de uma Andarilha Urbana” nasceu de uma frustração concreta de Leena com um edital e da decisão de fazer um longa mesmo sem dinheiro. “Se eu fui maluca de sugerir, eles foram ainda mais por aceitar”, brinca. Lady Jill é ainda mais direta ao falar de um mercado que considera elitista e seletivo: “precisamos parar de pedir permissão pra fazer nossa Arte”. A precariedade, portanto, não é escondida nem transformada artificialmente em virtude. Jill reconhece que esse processo produz uma estética própria, mas afirma que ela precisa ser assumida “de coração”. É uma postura que combina com a própria forma do filme, construído por um coletivo em que a autoria se dilui entre direção, atuação, ensaio e improvisação. Até a codireção funciona como extensão dessa lógica: Leena cuidou mais da pré-produção, Jill e LuPi assumiram grande parte do set enquanto ela se concentrava na atuação, e as divergências eram resolvidas pensando no que servia à obra. 


Há também uma dimensão queer que impede que essa história sobre deslocamento seja apenas um retrato geracional. Jill admite que Eloise foi a parte do projeto que mais dialogou com sua própria experiência, especialmente com as dificuldades de encontrar afeto. Leena vê na relação entre Eloise e Lola um conflito entre gerações e velocidades de vida, mas também acredita que existe uma experiência particularmente queer na sensação de não saber o que vem depois. “Muitas, infelizmente, não têm o apoio da família e acabam recebendo uma carga ainda maior na hora de enfrentar o mundo”, afirma. Por isso, o pertencimento que nasce entre as personagens não é apenas romântico: ele se aproxima da ideia de família escolhida e da possibilidade de construir comunidade quando aquela oferecida pela origem falha. O encontro entre as duas transforma Eloise de espectadora em participante e Lola de alguém que se sente atrasada em alguém capaz de compartilhar o próprio tempo.

 “Contos de uma Andarilha Urbana” é um filme tão coerente com sua própria existência. A equipe não esperou as condições ideais para começar, assim como Eloise e Lola não encontram respostas perfeitas antes de se aproximarem. Até a música segue essa lógica coletiva: a produção procurou artistas independentes e convidou amigos e novos parceiros para construir uma trilha que Lady Jill entende como parte essencial de sua linguagem. “É inerente da minha geração. É cinema”, afirma, defendendo as sequências que assumem deliberadamente uma estrutura de videoclipe. O filme defende essa possibilidade de fazer cinema antes que alguém autorize sua existência. São Paulo pode engolir, a indústria pode dificultar, a vida pode parecer curta demais e o futuro pode continuar incerto. Ainda assim, há alguma coisa que permanece: as histórias que conseguimos viver juntos. Como diz Leena, “é possível se fazer um filme se você tiver as pessoas certas ao seu lado”. “Contos de uma Andarilha Urbana” é o registro dessa persistência.