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terça-feira, 22 de setembro de 2026

Last Routine (Šampión, República Tcheca/ Eslováquia, 2026)

Existe uma ironia poderosa no centro de “Last Routine”. Em 1973, Ondrej Nepela já era uma celebridade mundial, campeão olímpico em Sapporo, tricampeão mundial e uma das maiores estrelas esportivas da Tchecoslováquia. Ainda assim, no Campeonato Mundial de Patinação Artística de Bratislava, ele entra no gelo como um homem que não possui inteiramente a própria vida. Jakub Červenka concentra o filme nas 24 horas que antecedem a apresentação decisiva e transforma uma vitória esportiva conhecida de antemão em um drama sobre medo, controle e liberdade. Nepela queria deixar a Tchecoslováquia e ingressar no Holiday on Ice, mas o Estado precisava primeiro de mais uma vitória sua em casa. A medalha de ouro, portanto, não representa apenas o auge de uma carreira, mas também o preço cobrado por um regime que transformava seus maiores atletas em símbolos nacionais.

Nepela era gay em uma sociedade na qual a homossexualidade havia deixado de ser crime no início dos anos 1960, mas continuava profundamente estigmatizada e praticamente impossível de assumir publicamente. O próprio atleta nunca confirmou sua orientação. O filme transforma esse silêncio em parte da tensão dramática: para um homem que representava oficialmente a pátria, ser plenamente quem era significava colocar em risco justamente a carreira que o regime havia transformado em instrumento de propaganda.

Adam Kubala entende muito bem essa contradição. Seu Nepela não é construído como o herói esportivo expansivo que esperamos de uma cinebiografia. Existe uma contenção quase permanente, como se cada gesto precisasse ser calculado antes de acontecer. Jana Nagyová também é fundamental como Hilda Múdra, treinadora que acompanhou Nepela durante praticamente toda a sua carreira e aparece aqui como uma das poucas pessoas capazes de alcançá-lo quando o medo finalmente vence a técnica.

É no gelo que Červenka encontra as imagens mais bonitas do filme. O filme, porém, nem sempre encontra a mesma sutileza fora do gelo. Um dos problemas é a maneira como alguns mecanismos de repressão estatal são dramatizados de forma excessivamente direta, especialmente na figura do agente da polícia secreta. Quando o regime aparece como uma presença caricatural, a complexidade da vigilância perde força. É muito mais eficiente, por exemplo, a sequência em que Nepela conversa por telefone com a cantora Eva Pilarová, enquanto a ligação é monitorada pelos agentes. Ali, o controle não precisa gritar. Basta estar presente.

A imagem mais poderosa de “Last Routine” não é a do campeão comemorando, mas justamente a daquele homem que termina sua apresentação sem conseguir celebrar completamente. O mundo vê uma vitória. Nepela vê uma porta que finalmente pode se abrir. Depois do Mundial, ele realmente partiria para o Holiday on Ice e viveria durante anos no Ocidente, antes de morrer em 1989, aos 38 anos. “Last Routine” entende que, para aquele atleta, liberdade não era uma abstração política. Era poder sair do gelo e finalmente existir sem precisar representar ninguém.