Mostrando postagens com marcador sarah paulson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sarah paulson. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de setembro de 2026

“American Horror Story”: o ranking com um olhar queer


Com a aguardada chegada de “American Horror Story: 13”, o retorno de Jessica Lange e a presença até de John Waters, me arrisquei a uma coisa perigosa: ranquear as 12 temporadas anteriores da série que é um dos meus maiores guilty pleasures. Olhei para “AHS” a partir de uma pergunta: o que a série fez, ao longo desses anos, com a representação queer e com as questões sociais que atravessam o horror? Mas este também é, assumidamente, um ranking de gosto pessoal.

E sim, coloquei “1984” em 10º. Podem começar os ataques!

12. “Delicate”

“Delicate” talvez seja a temporada em que a dimensão queer menos consegue se tornar parte estrutural do horror. Maternidade, paranoia, reprodução, controle do corpo feminino, Kim Kardashian e uma conspiração que transforma a gravidez em horror são os grandes temas. Ryan Murphy parece estar mais interessado em exaltar o ‘talento’ de suas protagonistas. No fim, mesmo com referências interessantes, nada dá muito certo.


11. “Double Feature”

“Double Feature” tinha duas oportunidades enormes de construir uma leitura queer e uma forte alegoria sua dependência química, mas acaba se dispersando. “Red Tide” transforma talento, ambição e criação artística em mercadoria, enquanto “Death Valley” trabalha com reprodução, corpos, teorias de conspiração e extraterrestres. São ideias que poderiam render muito, mas a temporada nunca encontra uma conexão forte entre elas. Tem Macaulay Culkin e homens grávidos. É Camp, mas vira piada.


10. “1984”

“1984” é uma das queridinhas de muita gente. Funciona muito bem como exercício de estilo, homenagem ao slasher, brincadeira com os códigos dos anos 1980 e desfile de corpos, violência, sexo e camp. O problema, para mim, é que o exercício metalinguístico não funciona, embora a espiral de mortes, tenha algo a dizer sobre a sociedade.


9. “Apocalypse”

“Apocalypse” tem uma quantidade impressionante de material queer porque carrega consigo a herança de “Murder House” e, principalmente, “Coven”. Mas existe uma diferença entre ser culturalmente queer e produzir uma discussão nova. Evan Peters interpreta um personagem gay e há ainda um clã de bruxos sexualmente ambíguo. O prazer está no reencontro, na referência, no fan service. É deliciosamente camp. É muito Ryan Murphy.


8. “Hotel”

Aqui entra Lady Gaga, e seria impossível falar de “Hotel” sem ela. A Condessa é praticamente uma fantasia queer de glamour, sexo, poder, moda e monstruosidade. Mas é Liz Taylor (Denis O'Hare) quem torna “Hotel” especialmente importante neste ranking. A personagem é uma mulher trans cuja trajetória ganha relevância durante a trama. “Hotel” é irregular, mas é também a temporada mais sexual da série. Sua importância para a representação queer é difícil de ignorar.


7. “Cult”

“Cult” pega a ansiedade de uma sociedade polarizada e transforma tudo em horror. A relação entre Ally e Ivy coloca um casal de mulheres no centro de uma história sobre medo, manipulação, extremismo e paranoia. A sexualidade participa diretamente das relações de poder que estruturam a temporada. É socialmente muito mais incisiva, e politicamente mais relevante, do que parece à primeira vista. E continua muito atual na América de hoje. E tem Evan Peters em múltiplos papeis incluindo Jesus Cristo e Andy Warhol!


6. “Roanoke”

“Roanoke” é onde o jogo de linguagem fica muito interessante. Documentário, reconstituição, atores interpretando pessoas reais, pessoas reais interpretando a si mesmas e, depois, reality show. Tudo vira um grande reality show dos horrores. A estrutura brinca com quem controla uma narrativa e com a maneira como uma identidade pode ser construída, vendida e consumida pelos outros.

E, tem um bônus importante: é graficamente a temporada mais violenta e perturbadora da série, que diga o falecido Leslie Jordan.


5. “Freak Show”

“Freak Show” talvez seja uma das temporadas em que “American Horror Story” mais diretamente pergunta: quem decide quem é um monstro? O circo reúne corpos e pessoas consideradas anormais pela sociedade. É comunidade, mas também exploração. É refúgio, mas também show. Os marginalizados encontram ali uma possibilidade de pertencimento.“Freak Show” entende que o monstro não nasce necessariamente monstruoso. Muitas vezes, ele é produzido pelo olhar de quem precisa colocar o outro fora da norma.


4. “Murder House”

“Murder House” estabelece uma das grandes obsessões de “American Horror Story”: a família considerada normal é, muitas vezes, o verdadeiro lugar do horror. A casa suburbana, o casamento, a maternidade, a masculinidade, a sexualidade e o desejo aparecem todos contaminados. A própria estrutura da família nuclear heteronormativa começa a desmoronar diante dos fantasmas e dos segredos. É o começo de uma linguagem que depois seria radicalizada pela série. Além disso a introdução do Rubber Man, um personagem recorrente, vestido de látex que dialoga diretamente com a cultura LGBTQIA+.


3. “NYC”

“NYC” é uma das temporadas em que o horror deixa de ser apenas uma alegoria. A história dos homens gays de Nova York no início dos anos 1980, a violência, a epidemia de AIDS e a indiferença institucional fazem com que o monstro seja muito menos fantástico do que normalmente esperamos da série. Aqui, o terror nasce de uma realidade histórica: pessoas desaparecendo, corpos adoecendo, comunidades devastadas e uma sociedade que demorou a responder à crise. Os dois últimos episódios são APOTEÓTICOS!


2. “Coven”

Como “Coven” não está em primeiro?

Porque “Coven” provavelmente é a temporada mais culturalmente queer de “American Horror Story”. Tudo nela parece construído para uma plateia queer: o camp, o figurino, o excesso, as divas, a teatralidade, as mulheres poderosas, a competição, o melodrama, a sexualidade e o humor. Quem não ama bruxas?  Mas este também é um ranking pessoal, e existe outra temporada que, para mim, consegue fazer da experiência queer uma parte ainda mais profunda do próprio horror.


1. “Asylum”

Em “Asylum”. Lana Winters (Sarah Paulson) é uma jornalista lésbica e sua sexualidade não é um detalhe. Ela é justamente uma das razões pelas quais a personagem acaba presa em Briarcliff e submetida a uma tentativa de “cura” da homossexualidade. E é justamente essa experiência que alimenta sua resistência, sua capacidade de testemunhar e sua decisão de contar o que aconteceu. Para mim, além de ser a melhor temporada de “American Horror Story”, “Asylum” é aquela em que representação queer, violência institucional, gênero, sexualidade e horror deixam de funcionar como elementos separados.

E agora vem “American Horror Story: 13”. Depois de anos sem Jessica Lange e com um elenco que reúne novamente Sarah Paulson, Evan Peters, Angela Bassett, Kathy Bates, Emma Roberts, Billie Lourd, Gabourey Sidibe e tantos outros rostos fundamentais da franquia, a nova temporada parece querer fazer mais do que recuperar personagens. Ela recupera a própria identidade de “AHS”.

Todos esses personagens icônicos parecem voltar para nos lembrar de uma coisa: por trás de bruxas, fantasmas, vampiros, alienígenas, assassinos e demônios, “American Horror Story” sempre teve uma pergunta muito mais incômoda:


quem é que a sociedade decidiu transformar em monstro?


John Waters em American Horror Story: 13

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Monstro: A História de Lizzie Borden (Monster: The Lizzie Borden Story, EUA, 2026)

Lizzie Borden já não pertence apenas à história. O assassinato do pai e da madrasta, em 1892, atravessou gerações, virou rima infantil, folclore, espetáculo e uma espécie de lenda urbana americana. É justamente por isso que “Monstro: A História de Lizzie Borden” não quer reproduzir o true crime, e sim brincar com aquilo que o imaginário popular já fez dele. Ryan Murphy e Ian Brennan tomam liberdades, inventam conexões, atravessam épocas e transformam um crime nunca completamente explicado em melodrama gótico, pop e deliciosamente exagerado.

O elenco inteiro embarca nessa proposta. Ella Beatty encontra em Lizzie uma mistura interessante de fragilidade, excentricidade e fúria, enquanto Charlie Hunnam, depois de interpretar Ed Gein na temporada anterior, aparece como o autoritário Andrew Borden. Rebecca Hall, que trabalhou com Murphy em “The Beauty”, está muito mais bem aproveitada aqui como Abby, uma mulher presa a uma família tão tóxica quanto o ambiente que tenta controlar. Mas quem rouba a cena é Vicky Krieps como Bridget “Maggie” Sullivan, criada, parceira do crime e amante de Lizzie. Ela muda os cabelos, desafia códigos de vestimenta, introduz prazer e transgressão naquele universo vitoriano e transforma a relação das duas no motor mais divertido da temporada. Krieps ainda interpreta Elizabeth Báthory em uma das digressões mais delirantes da série. A personagem histórica, que teria inspirado a Condessa de Lady Gaga em “Hotel”, cria mais uma conexão involuntária dentro do grande Murphyverso.

Essa ideia de uma linhagem feminina da violência é justamente o que permite a entrada de Aileen Wuornos (Sarah Paulson). Não existe qualquer evidência de que a serial killer tenha sido fascinada por Lizzie Borden, mas Murphy e Brennan inventam uma conexão quase espiritual entre as duas, separadas por quase um século. A intenção, segundo Brennan, é explorar uma espécie de legado da raiva feminina e perguntar o que acontece quando mulheres submetidas a diferentes formas de confinamento respondem à violência com violência. A série não precisa inocentar essas mulheres para se interessar por elas. E Paulson, como sempre, entende perfeitamente a linguagem de Murphy, entregando uma Aileen explosiva e assustadora, inclusive em uma das sequências graficamente mais violentas da temporada.

Esteticamente, “Monstro” encontra no vermelho sua assinatura. Se “Dahmer” tinha aquela tonalidade amarelada, quase doentia, aqui o sangue domina a imagem, mas existe uma delicadeza inesperada convivendo com a brutalidade. Os pratos, os tecidos, as flores e principalmente as cerejeiras cultivadas por Lizzie criam uma beleza quase ornamental para uma história de assassinato. A família Borden, por sua vez, é uma máquina de repressão: um pai controlador, uma madrasta ressentida, uma filha sufocada e uma casa onde até o afeto parece precisar pedir autorização para existir. A série transforma esse ambiente doméstico em uma prisão muito antes de transformar seus habitantes em vítimas de um machado.

E então Ryan Murphy faz aquilo que Ryan Murphy sabe fazer como poucos: transforma uma história de época em cultura pop. “Monstro” é anacrônica, estilizada e absolutamente consciente disso. A trilha mistura The Runaways, Siouxsie and the Banshees, Wet Leg, Natalie Merchant, Bronski Beat, Chromatics, The Doors, Kate Bush e Lambrini Girls, entre outras escolhas que poderiam parecer absurdas em uma produção sobre a Nova Inglaterra de 1892, mas ajudam a tirar a história do museu e colocá-la no presente.

O problema é que, mesmo com apenas oito episódios, “Monstro” às vezes sente a velha necessidade de Ryan Murphy de esticar uma boa ideia até ela perder um pouco do impacto. Há momentos em que a série parece entrar naquela conhecida zona de “encheção de linguiça”, quando a estilização, os devaneios e as provocações deixam de aprofundar Lizzie e começam apenas a alimentar o ego de Murphy. Ao transformar uma assassina acusada em ícone, amante, filha, vítima, monstro e personagem pop, os produtores parecem fazer a pergunta que mais interessa à própria série: o que acontece quando uma mulher deixa de aceitar o papel que a história escreveu para ela?

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Tudo é Justo (All's Fair, EUA, 2025)

“All’s Fair”, criada por Ryan Murphy, apresenta um melodrama jurídico pop como um exercício deliberado de exagero, superficialidade e ironia. A série acompanha um grupo de advogadas especialistas em divórcios milionários que rompem com um escritório dominado por homens para fundar a LVLUP Legal, em Los Angeles, transformando batalhas judiciais em arenas de poder, vingança e moda. Desde o início, fica claro que o interesse central não está na verossimilhança jurídica, mas na encenação de rivalidades femininas, alianças instáveis e na sátira de uma elite que consome o próprio colapso como entretenimento.

No centro desse tabuleiro está Allura Grant, interpretada por Kim Kardashian, uma protagonista moldada pela fusão entre persona pública e ficção. Advogada implacável e estrategista, Allura carrega marcas evidentes do próprio divórcio midiático de Kardashian e de seus estudos em Direito. O power dressing maximalista, construído com peças do closet real da atriz e com figurinos assinados por Paula Bradley, funciona como extensão narrativa da personagem, ocupando o tribunal como quem ocupa uma reality show. Ainda assim, a série não se esforça para aprofundar seus dilemas éticos, preferindo tratá-los como combustível dramático rápido.

O fogo cruzado de “All’s Fair” é a rivalidade entre Allura e Carrington Lane, vivida por Sarah Paulson. Carrington é a encarnação do ridículo consciente, uma vilã que abraça o exagero como método e rouba a cena justamente por não temer o caricato. O momento em que se disfarça de Allura, replicando maquiagem, figurino e postura para infiltrar-se simbolicamente na firma rival, sintetiza o projeto estético da série, identidade como performance, poder como farsa e humilhação como entretenimento. Paulson transforma a personagem em uma força caótica que sustenta o ritmo da temporada, mesmo quando o roteiro escorrega na repetição.

O elenco de apoio amplia esse jogo de contrastes. Glenn Close, como Dina Standish, surge como a matriarca ambígua da LVLUP Legal, uma mentora experiente cuja autoridade nunca é totalmente confiável, oferecendo conselhos tão afiados quanto manipuladores. Naomi Watts, como Liberty Ronson, traz um sarcasmo britânico elegante e uma recusa afetiva ao compromisso que dialoga com o cinismo estrutural do universo jurídico. Já Emerald Greene, (Niecy Nash-Betts), com seus chapéus de Carmen San Diego, apresenta um dos arcos mais promissores da temporada ao abordar abuso e sobrevivência, ainda que seu impacto seja diluído pela pressa narrativa e pelo tom caricato dominante. Teayana Taylor, atriz em ascensão, é completamente subaproveitada.

Visualmente, “All’s Fair” aposta em uma estética pop glamourosa que remete tanto a “Feud” quanto a “The Good Wife”, filtradas pelo gosto camp característico de Murphy. Ombreiras largas, cores codificadas por personagem e cenários que misturam luxo corporativo e teatralidade compõem um mundo onde tudo é performance. Essa estilização constante, embora sedutora, contribui para a sensação de superficialidade que marca a recepção crítica da série, frequentemente apontada como rasa, mas curiosamente eficaz em sua proposta de entretenimento autoconsciente.

Depois desse surto, Ryan Murphy merece uma intervenção. “All’s Fair” parece apenas querer alimentar seu ego e funciona menos como drama jurídico e mais como uma comédia cruel sobre poder, imagem e rivalidade feminina no capitalismo tardio. Ao tentar tocar em temas sérios como abuso, ética profissional e desigualdade de gênero, a série frequentemente os esvazia em favor das frases de efeito e do choque visual. Com uma season finale abrubta, e já renovada para a 2ª, a atração é um produto excessivo que assume o artifício e tenta encontrar forças não na profundidade, mas na coragem de ser escandalosamente superficial. Cliffhanger? Meu c*!

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

American Horror Story S5: Hotel(EUA, 2016)


Na quinta temporada da série antológica de Ryan Murphy e Brad Falchuck, fazemos check-in no Hotel Cortez, que apesar do mofo, dos gemidos misteriosos e da presença assustadora de Kathy Bates atrás do balcão, atrai turistas europeus, mesmo sabendo que não há wi-fi.

O visual excêntrico sempre esteve na superfície da série, tanto em ideias como no drama, mas encharcado em uma atmosfera assustadora e depravada. Hotel mantém a depravação mas parece ter abandonado o melodrama voluptuoso das temporadas Freak Show e Asylum, para seguir um caminho mais burlesco do que profundo.


A ação acontece em um elaborado set, criado pelo designer de produção Mark Worthington, que lembra o Overlook de O Iluminado(1980), mas também invoca saguões de cinema e espaços opulentes de lojas de departamentos ou navios de cruzeiro de filmes antigos de Hollywood.


Os apetrechos fantasmagóricos incluem Lady Gaga, a adição mais notável ao elenco, que aparece no meio do primeiro episódio como uma predadora parecida com Joan Crawford chamada Condessa, a fashionista proprietária do Hotel Cortez, e namorada de Donovan(Matt Bomer).


Outros membros recorrentes do elenco de AHS voltam e continuam a fazer um trabalho excelente. O inestimável Denis O'Hare interpreta uma crosdresser careca chamada Liz Taylor. Sarah Paulson mais uma vez tem o papel mais “sério”, como uma dependente química com um casaco de leopardo.


A trilha sonora de AHS Hotel inclui She Wants Revenge, Joy Division, New Order, Siouxsie and the Banshees, The Cure, Depeche Mode, Cowboy Junkies e, claro Eagles, com a clássica Hotel California.

A Condessa, junto de Donovan, pega estranhos para sexo em grupo que termina, é claro , em um banho de sangue. E ela é Lady Gaga, uma performer em constante evolução cuja aparição em cena já é um evento. Seus figurinos impecáveis, dão todo o toque sombrio, requintado e misterioso da personagem.

Cenas perturbadoras permeiam toda a série, como um colchão com uma cicatriz cirúrgica. Existem masmorras e câmaras de tortura e elevadores que parecem descer por um tempo terrivelmente longo. Existem crianças louras assustadoras que ficam no final dos corredores, olhando para os convidados, e fogem quando são confrontados. Existem terríveis objetos fálicos para estuprar os viciados que lá se hospedam para consumir sua droga.


Wes Bentley interpreta John Lowe um detetive da polícia de Los Angeles que está rastreando um assassino em série, inspirado em os 10 Mandamentos, ao estilo David Fincher. A regular da AHS, Chloë Sevigny, interpreta a esposa do herói. Após Lowe fazer check-in no Hotel Cortez, embarcará em sombrias, lisérgicas e sangrentas experiências.
Existem histórias individuais, ou que se desenrolam dentro do hotel ou conectadas a ele, mas muito começa a ser revelado quando Evan Peters aparece como Mr. March, o fundador do estabelecimento, um louco, um sádico, um psicopata, que esconde por trás das paredes de sua construção verdadeiros pesadelos.

sábado, 19 de setembro de 2020

Ratched(EUA, 2020)

ALERTA: Escrevi um texto tentando não revelar o conteúdo de cenas e sequências da série, mesmo assim a análise abaixo pode conter spoilers. Em Um Estranho no Ninho, que Milos Forman dirigiu em 1975, a enfermeira Ratched fazia um inferno da vida de Jack Nicholson em uma clínica psiquiátrica. Pois bem, Ratched, a série da Netflix estrelada brilhantemente por Sarah Paulson, é inspirada nessa personagem e conta a vida da enfermeira, no ano de 1947.

Ryan Murphy, criador de Pose e American Horror Story é o responsável pela produção onde imprime sua marca autêntica e criativa. A série faz parte da parceria de Murphy com a Netflix que já rendeu The Politician e a ótima Hollywood.


Em American Horror Story: Asylum, Sarah Paulson era uma jornalista homossexual que foi trancafiada em uma clínica psiquiátrica abusiva e bizarra. Agora ela está do outro lado da situação, como uma enfermeira sádica do Hospital Lucia, na Califórnia.


Tudo começa quando Edmund Tolles, Finn Wittrock de algumas temporadas de American Horror Story e filmes como Judy,  assassina quatro padres após uma sessão de Milagre na Rua 34. A série já começa mostrando a que veio, com muito sangue e um assassino impiedoso e sanguinário. O terror chegou!


Logo somos apresentados à Mildred Ratched, que com um visual inspirado em divas de Hollywood, chega ao Hospital Lucia, na Califórnia para trabalhar como enfermeira. Por lá encontra o misterioso médico Dr Handover, vivido por Jon Jon Briones e a enfermeira chefe Betsy Bucket, interpretada com excelência por Judy Davis. Bucket é uma personagem essencial no desenvolvimento da série.

A fotografia da serie é primorosa, com planos e enquadramentos que nos remetem à obras de arte muito coloridas, também fazendo alusão aos clássicos do Technicholor. O uso da iluminação cria o clima de cada momento, a luz vermelha em cenas de pura tensão nos fazem lembrar de Dario Argento na versão original de Suspiria. A trilha sonora é imponente e lembra clássicos de Brian de Palma e Alfred Hitchcock.

A homossexualidade da personagem principal é sugerida em uma disputa por um pêssego, mas logo ela se envolve com Gwendolyn Briggs, a assessora do governador, com quem vai à um bar para mulheres, porém rejeita sua condição embora saiba que seus instintos sejam gays e ela se obrigará a aceitá-los.


Com Edmund Tolles no Hospital Lucia, descobrimos que Mildred se trata de sua irmã e que está lá para salvá-lo. A partir de então passam a acontecer coisas violentas e surreais no hospital. Dr. Hanover faz tratamento com lésbicas através de lobotomia e banhos ferventes, enquanto personagens secundárias mas fundamentais vão entrando em cena.


A série tem participações luxuosas de Corey Stoll, Vincent D’Onofrio e Sharon Stone, que interpreta uma ricaça excêntrica que tem um macaco e um filho sem os membros. Ela busca então se vingar do responsável pela desgraça do filho, o Dr. Hanover, se tornando uma importante personagem dentro do universo da série.


Com um plot atrás do outro e muitas mortes, cada episódio conta uma história. Conhecemos as origens de Mildred e Edmond em uma cena com marionetes extremamente bonita e poética, ao mesmo tempo que é uma história de terror, enquanto seus laços com Gwendolyn vão se estreitando.


Os dilemas de Mildred Ratched nos mostram que ela, apesar, de monstruosa têm potencial para amar e é mais humana do que parece e cheia de nuances. Quando chegamos ao último episódio após uma odisséia de mortes, loucura, excentricidades e lobotomia, estamos completamente fascinados pela anti-heroína e por seu universo obscuro e ao mesmo tempo colorido. A próxima temporada já foi anunciada então é permitido dizer que tudo termina num instigante gancho.


Ratched, é mais uma obra brilhante de Ryan Murphy que vêm fazendo história em meio à comunidade queer por criar filmes e séries que dialogam diretamente com esse público. Que a parceria com a Netflix ainda renda muitos frutos como o já anunciado longa The Prom, com Nicole Kidman e Meryl Streep.