Lizzie Borden já não pertence apenas à história. O assassinato do pai e da madrasta, em 1892, atravessou gerações, virou rima infantil, folclore, espetáculo e uma espécie de lenda urbana americana. É justamente por isso que “Monstro: A História de Lizzie Borden” não quer reproduzir o true crime, e sim brincar com aquilo que o imaginário popular já fez dele. Ryan Murphy e Ian Brennan tomam liberdades, inventam conexões, atravessam épocas e transformam um crime nunca completamente explicado em melodrama gótico, pop e deliciosamente exagerado.
O elenco inteiro embarca nessa proposta. Ella Beatty encontra em Lizzie uma mistura interessante de fragilidade, excentricidade e fúria, enquanto Charlie Hunnam, depois de interpretar Ed Gein na temporada anterior, aparece como o autoritário Andrew Borden. Rebecca Hall, que trabalhou com Murphy em “The Beauty”, está muito mais bem aproveitada aqui como Abby, uma mulher presa a uma família tão tóxica quanto o ambiente que tenta controlar. Mas quem rouba a cena é Vicky Krieps como Bridget “Maggie” Sullivan, criada, parceira do crime e amante de Lizzie. Ela muda os cabelos, desafia códigos de vestimenta, introduz prazer e transgressão naquele universo vitoriano e transforma a relação das duas no motor mais divertido da temporada. Krieps ainda interpreta Elizabeth Báthory em uma das digressões mais delirantes da série. A personagem histórica, que teria inspirado a Condessa de Lady Gaga em “Hotel”, cria mais uma conexão involuntária dentro do grande Murphyverso.
Essa ideia de uma linhagem feminina da violência é justamente o que permite a entrada de Aileen Wuornos (Sarah Paulson). Não existe qualquer evidência de que a serial killer tenha sido fascinada por Lizzie Borden, mas Murphy e Brennan inventam uma conexão quase espiritual entre as duas, separadas por quase um século. A intenção, segundo Brennan, é explorar uma espécie de legado da raiva feminina e perguntar o que acontece quando mulheres submetidas a diferentes formas de confinamento respondem à violência com violência. A série não precisa inocentar essas mulheres para se interessar por elas. E Paulson, como sempre, entende perfeitamente a linguagem de Murphy, entregando uma Aileen explosiva e assustadora, inclusive em uma das sequências graficamente mais violentas da temporada.
Esteticamente, “Monstro” encontra no vermelho sua assinatura. Se “Dahmer” tinha aquela tonalidade amarelada, quase doentia, aqui o sangue domina a imagem, mas existe uma delicadeza inesperada convivendo com a brutalidade. Os pratos, os tecidos, as flores e principalmente as cerejeiras cultivadas por Lizzie criam uma beleza quase ornamental para uma história de assassinato. A família Borden, por sua vez, é uma máquina de repressão: um pai controlador, uma madrasta ressentida, uma filha sufocada e uma casa onde até o afeto parece precisar pedir autorização para existir. A série transforma esse ambiente doméstico em uma prisão muito antes de transformar seus habitantes em vítimas de um machado.
E então Ryan Murphy faz aquilo que Ryan Murphy sabe fazer como poucos: transforma uma história de época em cultura pop. “Monstro” é anacrônica, estilizada e absolutamente consciente disso. A trilha mistura The Runaways, Siouxsie and the Banshees, Wet Leg, Natalie Merchant, Bronski Beat, Chromatics, The Doors, Kate Bush e Lambrini Girls, entre outras escolhas que poderiam parecer absurdas em uma produção sobre a Nova Inglaterra de 1892, mas ajudam a tirar a história do museu e colocá-la no presente.
O problema é que, mesmo com apenas oito episódios, “Monstro” às vezes sente a velha necessidade de Ryan Murphy de esticar uma boa ideia até ela perder um pouco do impacto. Há momentos em que a série parece entrar naquela conhecida zona de “encheção de linguiça”, quando a estilização, os devaneios e as provocações deixam de aprofundar Lizzie e começam apenas a alimentar o ego de Murphy. Ao transformar uma assassina acusada em ícone, amante, filha, vítima, monstro e personagem pop, os produtores parecem fazer a pergunta que mais interessa à própria série: o que acontece quando uma mulher deixa de aceitar o papel que a história escreveu para ela?