sábado, 30 de maio de 2026

Miss You, Love You (EUA, 2026)

 “Miss You, Love You”, dirigido e roteirizado por Jim Rash, constrói um drama profundamente humano sobre luto, ressentimento e reconexão. Após a morte do marido, Diane Patterson (Allison Janney) precisa organizar o funeral praticamente sozinha. Seu filho distante não aparece e envia em seu lugar Jamie Simms (Andrew Rannells), seu assistente pessoal. O que poderia soar como uma comédia de constrangimentos se transforma em um delicado estudo sobre duas pessoas emocionalmente feridas, obrigadas a dividir um espaço de dor enquanto tentam compreender ausências, culpas e afetos mal resolvidos.

Rash, vencedor do Oscar pelo roteiro de “Os Descendentes”, aposta em uma estrutura quase teatral, centrada nos diálogos e na química entre seus protagonistas. O filme se passa majoritariamente dentro da casa de Diane, onde cada conversa parece abrir uma nova ferida. Há algo de clássico em sua construção, como os dramas intimistas que priorizavam personagens acima de grandes reviravoltas.

O maior mérito do longa está em suas atuações. Allison Janney entrega uma performance complexa, sua Diane em uma mulher difícil de amar, mas impossível de ignorar. Sua interpretação oscila entre sarcasmo, vulnerabilidade e amargura sem nunca perder a autenticidade. Andrew Rannells encontra o equilíbrio perfeito entre humor e melancolia. Jamie surge inicialmente como um intruso educado, mas aos poucos revela suas próprias inseguranças e carências emocionais. 

Jamie é assumidamente queer, algo tratado com naturalidade pelo roteiro, sem transformar sua sexualidade em um conflito. O filme também aborda o relacionamento entre Diane e seu filho Tyler, incluindo reflexões sobre aceitação, distanciamento familiar e as mudanças geracionais em torno da sexualidade. O mérito de Rash está justamente em integrar essa experiência ao tecido emocional da narrativa.

Esteticamente, o filme encontra força na paisagem árida do Novo México. A fotografia de Daniel Moder utiliza o deserto não apenas como cenário, mas como extensão do estado emocional de Diane. Os espaços amplos e silenciosos reforçam a sensação de isolamento, enquanto a montagem privilegia pausas, olhares e momentos de desconforto que dizem tanto quanto os diálogos.

“Miss You, Love You” cresce silenciosamente dentro do espectador. Jim Rash constrói uma obra sobre pessoas tentando encontrar conexão em meio aos escombros de suas vidas. É sobre o que fica quando alguém parte, sobre as palavras que nunca foram ditas e sobre a possibilidade de criar laços inesperados mesmo nos momentos mais difíceis.


Nenhum comentário:

Postar um comentário