segunda-feira, 11 de maio de 2026

Arrebol (Brasil, 2025)

“Arrebol”, curta escrito e dirigido por Duba Rodrigues, parte de uma premissa irresistível: um vampiro gay nordestino busca preservar qualquer vestígio de sua existência após descobrir que seu único retratista está morrendo. Mas o filme rapidamente se revela mais do que uma brincadeira fantástica sobre imortalidade. Em pouco menos de 25 minutos, Rodrigues constrói uma obra que atravessa terror, melodrama e humor ácido para falar, sobretudo, sobre o medo queer do apagamento, o desespero de desaparecer sem deixar imagem, memória ou desejo para trás.

Na pele de Delfim, Luiz D’Luzia entrega uma atuação impecável, transformando o personagem numa figura simultaneamente patética, sedutora e melancólica. Existe algo nele que remete diretamente ao “Drácula” revisitado por Radu Jude: um vampiro menos monstruoso do que cansado da própria existência, preso entre vaidade e decadência. Seus diálogos com Milton (Aramis Trindade), o pintor que registra sua imagem, são talvez a jugular do curta. Entre provocações e negações cômicas sobre sua condição vampiresca, os dois articulam uma conversa amarga sobre arte, permanência e finitude.

A fotografia em preto e branco de Pedro Moraes cria uma atmosfera expressionista belíssima, marcada por contrastes fortes e sombras que parecem engolir os personagens. Quando a cor finalmente invade a tela, especialmente no arrebol do desfecho, o efeito é quase espiritual. O filme entende que cor, aqui, não é ornamento: é revelação. O próprio diretor comentou o processo de construção dessa estética e a busca por um chiaroscuro inspirado em “Vampyr”, de Carl Theodor Dreyer.

O terror de “Arrebol” também nasce do som. A trilha e o desenho sonoro intensificam constantemente a sensação de suspensão, como se Delfim estivesse condenado a habitar um mundo que já não o comporta. Ao mesmo tempo, o filme jamais abandona o humor  e é justamente dessa colisão entre o grotesco e o melancólico que surge sua potência. O vampiro queer de Rodrigues não é uma criatura elegante isolada num castelo europeu; ele pertence ao sertão baiano, atravessado por carrancas, assombrações e mitologias populares que se fundem organicamente, e esteticamente, à narrativa.

Existe ainda algo profundamente bonito na maneira como o curta exalta diferentes formas de manifestação artística. Pintura, fotografia e cinema aparecem como tentativas desesperadas de capturar o efêmero. Delfim não quer apenas sobreviver: ele quer ser visto. Quer existir na imagem. E talvez seja aí que “Arrebol” encontre sua dimensão mais humana e dolorosa, ao transformar o horror fantástico numa reflexão sobre pertencimento, memória e morte, temas historicamente atravessados pela experiência queer.

Não surpreende que o curta tenha conquistado o prêmio de Melhor Curta-Metragem Horror no 16º CineFantasy e seguido circulando por festivais ligados ao cinema fantástico e queer. “Arrebol” pertence a uma geração  que entende o fantástico não como escapismo, mas como ferramenta para fabular traumas, desejos e fantasmas sociais. Poético, engraçado e profundamente melancólico, o filme de Duba Rodrigues prova que o horror queer nacional está encontrando, finalmente, sua própria linguagem, uma linguagem feita de sangue, saudade e o anoitecer.


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