“Diary of a Woman”, de Simon Aeby, mergulha o espectador em uma atmosfera sufocante, marcada por silêncios prolongados, enquadramentos escuros e uma sensação constante de desintegração emocional. A história segue Alex Darkley( Marcel Schneider), um professor suíço consumido por traumas ligados à repressão de sua identidade de gênero. O longa pretende construir um estudo psicológico sobre alienação, culpa e desejo de transformação, mas frequentemente confunde intensidade emocional com repetição. Ainda assim, existe algo honestamente perturbador na maneira como Aeby filma o colapso de seu protagonista.
O maior acerto está justamente em Schneider. Sua atuação sustenta praticamente toda a experiência, especialmente porque o roteiro oferece pouco suporte aos personagens secundários. Ele interpreta Alex como alguém permanentemente deslocado do próprio corpo, alguém incapaz de habitar plenamente qualquer espaço social ou afetivo. Quando o personagem começa sua transição para Alexa, o filme encontra seus momentos mais interessantes, porque abandona parcialmente o discurso clínico do trauma e se aproxima de uma investigação mais íntima sobre identidade e autoimagem.
O problema é que Simon Aeby parece desconfiar da sutileza. O filme inteiro opera em uma única frequência emocional, a da angústia permanente. A fotografia de Roberto Cancellara, construída sobre tons frios e composições carregadas de sombra, inicialmente funciona como extensão visual do estado mental de Alex. Porém, conforme a narrativa avança, essa insistência estética se torna cansativa.
Ainda assim, seria injusto negar a coragem do projeto. Aeby escolhe abordar identidade de gênero, trauma psicológico e suicídio sem transformar esses temas em discurso edificante ou narrativa de superação fácil. Existe uma aspereza sincera em sua abordagem, uma disposição em permanecer dentro do desconforto mesmo quando isso compromete o ritmo ou a acessibilidade do longa. Em seus melhores momentos, o filme realmente transmite a sensação de uma mente em colapso tentando desesperadamente reorganizar a própria identidade.
“Diary of a Woman” é mais admirável do que propriamente bem-sucedido. O filme possui ambição emocional e estética suficientes para permanecer na memória, mas raramente encontra equilíbrio entre introspecção e monotonia. Simon Aeby demonstra sensibilidade visual e coragem temática, porém ainda parece acreditar que sofrimento constante automaticamente produz profundidade dramática. Mesmo assim, há valor na tentativa de construir um retrato queer que não seja higienizado, otimista ou conciliador.


Nenhum comentário:
Postar um comentário