Em “The Wilderness”, Spencer King transforma sua experiência pessoal em um drama cru e contido sobre o universo opressivo dos programas de “wilderness therapy” nos Estados Unidos. O filme acompanha Ed (Hunter Doohan, de “Wandinha”), um adolescente enlutado e viciado, sequestrado de casa e abandonado no deserto de Utah junto a outros jovens “problemáticos”.
Longe da família e do mundo, o grupo enfrenta não só as durezas da natureza, mas sobretudo a manipulação psicológica de um sistema que promete cura enquanto exerce controle absoluto. King evita sensacionalismo e opta por uma narrativa lenta, quase contemplativa, que espelha o isolamento imposto aos garotos.A câmera registra com paciência os rituais diários de sobrevivência, os silêncios pesados e as microdinâmicas de poder. O deserto, filmado com beleza austera, funciona como personagem: ao mesmo tempo belo e hostil, ele reflete o vazio emocional que os jovens carregam. Doohan entrega uma atuação interna e precisa, transmitindo vulnerabilidade através do olhar e da contenção corporal, enquanto Lamar Johnson como Miles traz uma camada de urgência e humanidade ao grupo.
O que torna o filme interessante para um olhar queer é a forma como explora a intimidade masculina em um ambiente de repressão. Os laços que se formam entre os garotos, marcados por conversas sussurradas, toques acidentais e uma solidariedade frágil, carregam uma carga homoerótica latente, mesmo sem ser nomeada. A vulnerabilidade forçada, o toque terapêutico que vira afeto, o corpo jovem exposto ao sol e ao cansaço: tudo isso evoca uma sensualidade discreta que dialoga com tradições do cinema queer sobre masculinidade e sobrevivência.
King não transforma o filme em manifesto, mas deixa claro o quanto esses programas punem qualquer “desvio", seja de gênero, sexualidade ou simplesmente de “normalidade”. A ausência de figuras parentais e a rigidez autoritária do diretor do acampamento (Sam Jaeger) reforçam a ideia de que o “tratamento” é, na verdade, uma tentativa de moldar corpos e desejos rebeldes. O não dito ganha força justamente por isso.
Contido e sonoramente imersivo (o vento, o fogo, a respiração), “The Wilderness” consegue ser ao mesmo tempo denúncia e elegia. Não oferece redenção nem catarse preferindo mostrar como a dor e a conexão humana persistem mesmo nos espaços mais hostis. É um filme sobre meninos que aprendem a se tocar, literalmente e simbolicamente, para não se perderem.
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