quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pequenos Pecados(Kaj ti je deklica, Eslovênia/Itália/Croácia/Sérvia, 2025)

“Pequenos Pecados", a estreia em longa-metragem de Urška Djukić, opera na zona de desconforto entre o coro angelical e a turbulência silenciosa. O título original, emprestado do Sonic Youth, já lança a primeira provocação: o que define uma "garota problemática"? Para a protagonista Lucija (Jara Sofija Ostan), o problema não é a rebeldia explícita, mas a impossibilidade de conciliar a performance da "boa menina" católica com a descoberta de um corpo que insiste em desejar. Djukić, munida de sua própria bagagem em ambientes repressivos na Eslovênia, constrói um filme que não se contenta em ser apenas mais um relato de amadurecimento, mas sim um estudo sensorial sobre como a fé e a carne colidem em um silêncio ensurdecedor.

A ambientação em um convento em reformas na Itália funciona como uma metáfora arquitetônica para a própria Lucija. Enquanto as paredes do retiro religioso são lixadas e reconstruídas, a psique da adolescente atravessa um processo semelhante de demolição. A influência de Lucrecia Martel, especialmente de "A Menina Santa", é palpável: o sagrado e o profano não são opostos, mas substâncias que se misturam no suor, no toque das flores e na tensão de um coral onde a pureza vocal esconde uma ebulição hormonal.

O cerne queer da obra foge das armadilhas didáticas da identidade rotulada. Lucija não está em busca de uma saída do armário, mas sim em meio ao fluxo caótico de uma sexualidade que se manifesta de forma fluida e tátil. A atração por Ana-Marija (Mina Svajger) é carregada de uma admiração perigosa, marcada por uma assimetria de poder e experiência que torna o desejo ainda mais intoxicante. Ao mesmo tempo, o interesse de Lucija por um trabalhador externo sublinha uma bissexualidade que o filme trata com uma naturalidade provocativa: o desejo feminino não precisa de um alvo único ou de uma justificativa política; ele apenas é.

É um cinema de anseio, onde o ato físico é frequentemente preterido pela antecipação do toque. Essa escolha formal reflete a repressão religiosa; quando não se pode agir, cada centímetro de pele exposta ou cada sussurro no dormitório do convento ganha proporções monumentais. Djukić utiliza sua experiência com animação e curtas para imprimir um ritmo onde o sensorial precede o narrativo, fazendo com que a audiência sinta o peso do clima úmido e da culpa cristã.

A provocação de "Pequenos Pecados" é que o filme sugere que a "garota boa" e a "garota problemática" são a mesma pessoa, apenas em estágios diferentes de consciência sobre sua própria agência. A repressão religiosa, ao tentar suprimir o corpo, acaba por torná-lo o centro do universo de Lucija.

Indicado ao Teddy Award e aclamado em Berlim, o longa consolida Urška Djukić ao equilibrar a leveza das fofocas adolescentes com a gravidade dos dogmas religiosos, o filme evita o cinismo e a caricatura. "Pequenos Pecados" é um manifesto poético sobre o direito ao mistério e à imperfeição.

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