"El filo de las tijeras", dirigido por David Marcial Valverdi, habita na fronteira entre memória, confissão e fantasia erótica. Misturando documentário, animação e autoficção, o longa acompanha o próprio diretor revisitando episódios fundamentais da construção de sua sexualidade e identidade afetiva. A narrativa parte das lembranças da infância na barbearia da avó, no conurbano de Buenos Aires, e se expande para experiências de cruising nos anos 90, relações homoeróticas e a vivência de uma trisal que durou sete anos. O resultado é uma espécie de diário íntimo queer, onde desejo e memória se tornam inseparáveis.
O mais fascinante no filme é justamente a maneira como Valverdi entende o desejo como arquivo. Cada lembrança parece funcionar menos como reconstrução factual e mais como tentativa de compreender os caminhos emocionais que moldaram sua subjetividade gay. A barbearia da avó, espaço tradicionalmente associado à masculinidade, surge como primeiro território de observação e fascínio.
Quando "El filo de las tijeras" mergulha nas experiências de cruising, o longa ganha outra camada ainda mais interessante. Valverdi filma esses encontros anônimos não apenas como prática sexual, mas como ritual urbano de pertencimento queer. Existe algo profundamente melancólico na forma como ele revisita os anos 90, período em que o cruising funcionava simultaneamente como espaço de risco, liberdade e descoberta. O diretor parece compreender que muitos homens gays daquela geração aprenderam a desejar justamente através da clandestinidade, da escuridão e da improvisação dos encontros fugazes em espaços públicos.
Quanto a vivência do trisal, Valverdi investiga o desgaste emocional, as negociações afetivas e as pequenas violências silenciosas que atravessam qualquer relação amorosa. O filme entende que o desejo queer raramente cabe em modelos rígidos, e transforma essa instabilidade em linguagem estética.
"El filo de las tijeras" abraça o fragmento. A mistura entre imagens documentais, encenações e animação cria uma sensação constante de memória incompleta, como se o diretor estivesse tentando reorganizar pedaços dispersos da própria vida. O caráter confessional nunca vira narcisismo vazio porque Valverdi compreende que falar sobre si também significa falar de uma geração inteira de homens queer latino-americanos atravessados por silêncio, desejo e reinvenção.
"El filo de las tijeras" pertence a um tipo de cinema queer latino-americano cada vez mais interessado em borrar fronteiras entre autobiografia, performance e política do desejo. Mais do que um relato pessoal, o longa funciona como cartografia afetiva de experiências homoeróticas que raramente encontram espaço no cinema tradicional. Íntimo, vulnerável e sexualmente honesto, o filme de David Marcial Valverdi transforma a memória em corpo vivo.
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