segunda-feira, 4 de maio de 2026

Montréal, Ma Belle (Canadá, 2025)

“Montréal, ma belle”, de Xiaodan He, é daqueles filmes sem grandes explosões dramáticas e ainda assim necessário. O longa constrói uma narrativa íntima sobre desejo e descoberta, acompanhando uma mulher que, já na maturidade, decide se escutar pela primeira vez. O verão em Montreal não é só cenário: é temperatura, é estado de espírito, é o espaço onde algo finalmente se desloca.

A história segue  Feng Xia (Joan Chen), uma imigrante chinesa de 53 anos que viveu décadas atravessada por expectativas familiares e culturais. Entre o casamento e a rotina, sua subjetividade foi ficando em suspenso. Quando começa a estudar francês e se permite circular por outros espaços da cidade, algo muda, e esse movimento encontra eco no encontro com Camille (Charlotte Aubin), uma jovem quebequense que opera em outra lógica, mais aberta, mais direta, mais presente.


O filme trabalha essa relação sem pressa, entendendo o desejo como processo, não como ruptura imediata. Existe uma delicadeza na forma como essa conexão se constrói, mas também um conflito constante: Feng Xia não está apenas descobrindo um novo afeto, ela está desmontando décadas de silenciamento. A diferença de idade entra menos como choque e mais como contraste de tempos, uma viveu contida, a outra parece já ter atravessado esse tipo de bloqueio.


Joan Chen sustenta tudo com uma atuação que aposta no mínimo. É no gesto contido, no olhar que hesita, na pausa antes da decisão que a personagem ganha densidade. Charlotte Aubin funciona como contraponto interessante, trazendo leveza e uma energia mais imediata, mas sem cair em idealizações. 

Xiaodan He filma esse desejo com cuidado. Há uma recusa em dramatizar demais, o que pode soar contido, mas também preserva a dimensão mais interna da história. A fotografia acompanha esse gesto, captando uma Montreal luminosa, mas nunca turística, é uma cidade vivida, atravessada, quase cúmplice desse deslocamento emocional.

“Montréal, ma belle” chama atenção por olhar para um recorte ainda pouco explorado: o desejo lésbico na maturidade, atravessado por questões de imigração e pertencimento. Não é um filme sobre grandes afirmações, mas sobre pequenas viradas internas que mudam tudo.


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