“Screams from the Tower”, escrito e dirigido por Cory Wexler Grant, representa o ruído de uma rádio escolar nos anos 90, o cheiro de fita cassete, o desconforto de crescer sendo “estranho” em um subúrbio americano que não sabe muito bem o que fazer com garotos queer. O longa segue Julien Rosdahl (Richie Fusco), um adolescente pintoso, barulhento e claramente deslocado, que finalmente consegue realizar o sonho de comandar um programa na rádio da escola ao lado do melhor amigo Cary (David Bloom).
Grant bebe diretamente da tradição dos coming-of-age dos anos 80 e 90, especialmente do cinema de John Hughes, mas faz algo que aqueles filmes raramente permitiam: colocar personagens queer no centro da narrativa sem tratá-los apenas como alívio cômico ou subtexto. Julien é pintoso, performático e desconfortavelmente autêntico. Cary, ao contrário, tenta desesperadamente sobreviver pela assimilação. Essa tensão entre os dois, entre quem aceita ser “diferente” e quem teme carregar esse rótulo, move o filme com uma honestidade emocional que ecoa “Young Soul Rebels”, de Isaac Julien.
O filme entende perfeitamente a rádio como espaço LGBTQIA+.. Não apenas porque ela permite que aqueles adolescentes falem sem filtro, mas porque funciona como território de reinvenção. Atrás do microfone, Julien e seus amigos deixam de ser os “esquisitos” da escola e passam a controlar a narrativa. Existe algo profundamente tocante nessa ideia de jovens queer encontrando voz antes mesmo de encontrarem identidade. “Screams from the Tower” talvez nunca mergulhe totalmente em romance ou sexualidade explícita, mas compreende com precisão aquele momento específico.
Ao mesmo tempo, Cory Wexler Grant evita transformar o longa numa fantasia nostálgica higienizada. Conforme a popularidade do programa cresce, o filme revela o custo psicológico de performar irreverência o tempo inteiro. Julien começa a afundar em ansiedade, obsessões e crises de identidade que o roteiro trata com delicadeza. O elenco todo atua em perfeita sintonia nessa jornada emocional, com o peso caindo mais em Richie Fusco e sua deliciosa vibe flamboyant.“Screams from the Tower” funciona como homenagem e reparação histórica. Um filme que olha para os teen movies clássicos dos anos 90 e pergunta: onde estavam as pessoas queer nessa paisagem? A resposta de Grant não vem através do trauma extremo nem do melodrama pesado, mas pela ternura. Entre piadas absurdas, programas de rádio caóticos e amizades adolescentes prestes a desmoronar, o longa encontra algo: um retrato genuinamente afetuoso sobre jovens LGBTQIA+ tentando descobrir quem são antes que o mundo lhes diga quem deveriam ser.
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