terça-feira, 12 de maio de 2026

The Christophers (Reino Unido/EUA, 2025)

“The Christophers”, de Steven Soderbergh, começa como um filme sobre falsificação de arte, mas rapidamente revela algo mais melancólico e íntimo: uma reflexão sobre legado, desejo e o medo de desaparecer. No centro da narrativa está Julian Sklar (Ian McKellen), um pintor queer envelhecido, isolado em uma townhouse decadente de Londres, cercado por telas inacabadas e fantasmas emocionais. Seus filhos contratam Lori Butler (Michaela Coel), uma restauradora e artista frustrada, para finalizar clandestinamente a famosa série de quadros “The Christophers”, retratos inspirados em Christophe, o grande amor masculino de Julian e a figura que atravessa toda a sua obra.

Soderbergh transforma essa premissa quase absurda em um drama inesperadamente comovente sobre artistas que vivem assombrados pela própria imagem. Julian não é apenas um velho pintor amargo; ele é um homem queer que envelheceu carregando as marcas de uma geração para quem viver abertamente “custava algo”, como o próprio personagem comenta.

O filme nunca transforma sua sexualidade em manifesto explícito, mas ela atravessa silenciosamente tudo: a maneira como ele olha para os quadros, o ressentimento dos filhos nascidos de seus anos de repressão, e principalmente a obsessão pelos “Christophers”, pinturas que funcionam como tentativa desesperada de eternizar um amor perdido.

Ian McKellen entrega uma atuação monumental justamente porque entende esse tipo de homem por dentro. Seu Julian alterna crueldade, ironia e fragilidade com uma fluidez impressionante. Há algo profundamente triste em vê-lo tentando sustentar uma pose de gênio insuportável enquanto o mundo já o trata como relíquia inconveniente.

A dinâmica entre Julian e Lori é o grande eixo dramático do filme. Michaela Coel constrói uma personagem igualmente marcada pela frustração criativa, e o encontro entre os dois vira uma batalha de egos, ressentimentos e admiração mútua. O roteiro de Ed Solomon evita transformar Lori em simples discípula ou antagonista: ela entende Julian porque também sabe o que significa ter o próprio talento desviado pelas estruturas do mercado e da crítica.

“The Christophers” é um dos trabalhos mais delicados da fase recente de Soderbergh. Um filme sobre autenticidade, mas também sobre performance; sobre falsificação, mas sobretudo sobre memória queer. Ao transformar os retratos de Christopher em símbolo de um amor impossível de recuperar completamente, o longa encontra uma melancolia singular.

Nenhum comentário:

Postar um comentário