Em "Sangria", curta escrito e dirigido por Henrique Schlickmann, o luto assume a forma de um duplo. Depois da perda de Caio (Eduardo Jaques), seu grande amor, Lucca (Winicius Michels) se dissocia da própria realidade e passa a ser assombrado por uma figura que confunde com o irmão gêmeo Heitor (Vinicius Colla). A fronteira entre memória, alucinação e presença sobrenatural conduz os 13 minutos de um filme que transforma uma experiência íntima em um terror de atmosfera. A obra passou pelo FAM - Florianópolis Audiovisual Mercosul, onde realizou sua estreia brasileira na própria cidade em que foi filmada, pelo Hysteria Film Festival, em Saint Louis, onde Winicius Michels recebeu o prêmio de Melhor Ator em curta-metragem, pelo Toronto Lift-Off Film Festival, no qual foi semifinalista, pelo Phemomena Festival, e vários outros. Schlickmann conta que a imagem inicial nasceu de um sonho: perseguia alguém até um banheiro, entrava em uma banheira e encontrava uma versão de si mesmo "melhor, mais forte, mais segura". No filme, esse movimento se transforma em uma espécie de renascimento.
"Sangria" está incorporado à experiência de Lucca e à maneira como o filme representa a perda de seu relacionamento. A homofobia não aparece necessariamente como agressão explícita, mas como isolamento, como a sensação de não pertencer e de precisar atravessar determinadas dores sozinho. É significativo que Schlickmann descreva o sofrimento do personagem a partir dessa solidão: "A homofobia na obra não é tratada abertamente de maneira violenta, mas sim na solidão de não ser parte, de sofrer sozinho." O que importa é a ausência que Caio deixa e a dificuldade de Lucca reorganizar a própria existência depois dela.
Essa relação entre desejo e perda também determina o funcionamento do terror. Schlickmann rejeita a ideia de "Sangria" como simplesmente uma história de amor e formula uma definição muito mais interessante: "para mim é o que sobra de uma história de amor". O sobrenatural nasce justamente desse resto. Lucca procura respostas que já não podem modificar o passado, revisita símbolos deixados pelo relacionamento e transforma a impossibilidade de encerramento em uma figura que o persegue. "A dor que o protagonista sente não pode ser descrita, então o assombro é a materialização de suas incertezas", explica o diretor. O terror deixa de ser uma ameaça externa e passa a representar uma experiência psíquica. A figura do Duplo amplia essa instabilidade, porque nunca está completamente definido se estamos diante de uma extensão de Heitor ou de uma projeção do próprio Lucca.
A estética acompanha essa progressão entre realidade e dissociação. Schlickmann explica que buscou uma "sobriedade" nas cenas em que Lucca está acompanhado e uma abertura visual maior quando o personagem está sozinho. As lembranças também não procuram reproduzir fielmente aquilo que aconteceu, mas aquilo que restou delas depois da contaminação provocada pela dor. É uma diferença importante: a memória não aparece como arquivo confiável, mas como matéria deformada pelo luto. A fotografia e a montagem trabalham gradualmente para transformar o espaço cotidiano em território de ameaça, enquanto os efeitos práticos contribuem para dar fisicalidade ao sobrenatural. O filme cresce em direção a um estopim emocional que não é propriamente um susto, mas o primeiro choro de Lucca. O horror encontra sua resolução no instante em que o personagem finalmente consegue sentir aquilo que passou boa parte da narrativa tentando expulsar de si.
A construção de Lucca e Heitor se apoia justamente nessa instabilidade do duplo. A escolha de dois intérpretes fisicamente semelhantes não serve apenas para criar uma confusão narrativa: coloca em questão a própria identidade do protagonista. Schlickmann queria "gêmeos idênticos como protagonistas, justamente para potencializar a dualidade da figura do Duplo", mantendo aberta a possibilidade de que aquela presença seja simultaneamente o irmão e o próprio Lucca. A dualidade também conversa com a dimensão autobiográfica que o diretor reconhece não como reprodução literal de sua vida, mas como sentimento. "A necessidade de abandonar pessoas é uma figura de assombro minha", afirma.
O resultado é particularmente significativo porque "Sangria" quase não chegou à forma concebida. Todo o material bruto foi perdido, e a equipe teve como ponto de partida uma montagem feita em sequência com os melhores planos. Existe algo de fantasmático nessa própria trajetória: um filme sobre aquilo que permanece depois da perda também sobrevive a uma espécie de desaparecimento material. E talvez sua síntese esteja na canção de encerramento escrita e produzida por João Victor Alberton: "there’s still some of you in some of mine". Existe ainda alguma parte de você em parte de mim. Schlickmann parece levar essa ideia para além de "Sangria": seus próximos projetos continuam explorando terror, romance, violência familiar e sexualidade, incluindo "O Menino Antes de Nós", longa sobre dois jovens que se apaixonam em meio a um legado familiar violento. O curta deixa a impressão de um cineasta que encontrou no terror uma linguagem para falar de vínculos que terminam, mas continuam assombrando.



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