terça-feira, 1 de setembro de 2026

I Want Your Sex (EUA, 2026)

Doze anos depois de “Pássaro Branco na Nevasca”, Gregg Araki retorna com “I Want Your Sex”. O filme segue Elliot (Cooper Hoffman), um jovem recém-formado, que consegue um emprego ao lado da artista conceitual Erika Tracy (Olivia Wilde), uma figura poderosa, extravagante e sexualmente insaciável. Quando ela transforma o novo assistente em sua musa e amante, Araki constrói uma comédia sexual sobre submissão, obsessão, poder e uma geração que parece ter aprendido a falar muito sobre sexo antes de conseguir, necessariamente, se entregar a ele. 

A grande provocação de “I Want Your Sex” está em colocar a revolução sexual sob suspeita. Araki e sua corroteirista Karley Sciortino transformam a ansiedade contemporânea em sátira: Elliot pertence a uma geração atravessada pela vigilância digital, pelo medo de ultrapassar limites e pela necessidade de transformar cada experiência em algo previamente analisado. Erika, por sua vez, aparece como o oposto absoluto, uma mulher que entende o desconforto, a experimentação e a perda de controle como partes essenciais do prazer. O embate entre os dois produz algumas das melhores ideias do filme, embora também revele uma contradição: Araki provoca a cultura sexual contemporânea sem idealizar completamente a suposta liberdade das gerações anteriores. 

Olivia Wilde compreende perfeitamente a frequência de Araki. Erika Tracy é uma louca, uma deusa, uma feiticeira. Uma dominatrix selvagem, uma artista, uma empresária de si mesma e uma personagem saída de uma fantasia sobre as grandes divas do cinema. Há algo de “O Crepúsculo dos Deuseus” na relação entre essa mulher poderosa e o jovem fascinado que entra em seu universo. Mason Gooding aparece como um gay fashionista, mas sem necessariamente dar pinta, e Chase Sui Wonders adiciona uma bem-vinda fluidez como a amiga de Elliot. Há ainda uma participação da onipresente Charli XCX, com seu tédio blasé. Araki que sempre gostou de rotular seus filmes, talvez faça aqui sua obra mais BISSEXUAL.


Esteticamente, “I Want Your Sex” devolve Gregg Araki a um território familiar. As cores parecem ter sido escolhidas para competir entre si; o figurino, os interiores, os objetos fetichistas, e a própria artificialidade de Los Angeles transformam o filme numa extensão pop e camp do universo que o diretor construiu desde “The Doom Generation” e “Nowhere”. Mas existe uma diferença importante: este é  mais acessível e, paradoxalmente, um dos menos explicitamente queer de sua carreira. 

O queer, desta vez, não está apenas na orientação sexual dos personagens, mas na maneira como o filme trata a normatividade. BDSM, submissão, trisais e fantasias. Araki continua desmontando a ideia de que existe uma forma naturalmente correta de desejar. Mesmo quando o protagonista está inserido numa narrativa predominantemente heterossexual, o universo que o cerca é construído a partir de códigos historicamente associados à cultura queer: performance, escândalo, fetiche, exagero e a possibilidade de inventar novas regras para o próprio corpo. 

O problema é que o filme nem sempre consegue equilibrar sua leveza com aquilo que há de efetivamente inquietante em sua premissa.  Ainda assim, seria estranho exigir de Gregg Araki um tratado sociológico sobre consentimento ou política sexual. “I Want Your Sex” funciona melhor quando aceita ser uma fantasia pop, uma comédia maliciosa e um filme interessado em recuperar algo que o cinema contemporâneo está redescobrindo: o sexo como território de humor, sentimento, ridículo e descoberta. Araki não retorna com a fúria niilista de “The Living End” nem com o caos juvenil da trilogia do Apocalipse Teen. Seu novo filme é mais leve, mais domesticado e, em muitos sentidos, mais comercial.

Um comentário:

  1. Odeio a palavra queer. Se eu fim heterossexual como esse é queer de que serve a palavra? Gregg Araki se heterolizou e ficouo mais comercial ao longo da carreira, tem nada de interessante, subversivo ou gay restante no cinema. Esse filme é insuportável.

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