domingo, 12 de abril de 2026

The Last Year of Darkness (午夜出走 , China/EUA, 2023)

Em “The Last Year of Darkness”, de Benjamin Mullinkosson, o que resta de uma boate chamada Funky Town, em Chengdu, não é apenas um espaço físico prestes a ser engolido pelo concreto chinês: é um corpo vivo, pulsante, que respira através de corpos queer, skatistas, drags e DJs que transformam a noite em refúgio contra o dia que avança sem piedade. O documentário, filmado ao longo de anos, captura o último suspiro dessa cena underground como se a câmera fosse mais um frequentador anônimo do que um observador distante. Aqui, a gentrificação não é mero pano de fundo; é o vilão silencioso que ameaça apagar, junto com as luzes vermelhas da boate, a possibilidade mesma de existir fora das normas.

O que Mullinkosson faz é menos registrar uma subcultura e mais revelar sua anatomia afetiva. Yihao, a drag queen mercurial que atravessa o filme como uma faísca de glitter e angústia, flerta, vomita, dança e questiona sua própria fluidez sexual num fluxo que recusa rótulos. Ao seu lado, DJs e frequentadores transitam entre o hedonismo cru e a solidão melancólica, construindo laços que não cabem em definições heteronormativas. 


A estética do filme é deliberadamente suja e granulada. A câmera se cola aos corpos em movimento, aos silêncios entre as batidas, à paleta de vermelhos e azuis que transforma a boate num útero urbano. Não há romantização: o vômito, a ressaca, as brigas e as despedidas são mostrados com a mesma ternura que as danças extáticas.

No cerne do documentário pulsa a efemeridade da juventude queer sob regimes que preferem invisibilidade. Chengdu, com sua modernização acelerada, funciona como metáfora maior: o progresso capitalista devora tudo o que não se encaixa, incluindo os espaços de liberdade sexual e afetiva. Mullinkosson, americano radicado na China, filma sem paternalismo ou exotismo; ele filma como quem ama. O resultado é um retrato que transcende o local: é sobre qualquer comunidade queer que vê seus refúgios serem demolidos em nome do “desenvolvimento”. A boate Funky Town fecha, mas o filme a mantém viva, como um ato de memória rebelde.


O que mais impressiona é a ausência de moralismo. Não há lições de resistência explícita nem denúncias diretas ao autoritarismo chinês. Em vez disso, o filme confia na força poética do registro: a câmera acompanha a dor da perda sem explicá-la, deixando que o espectador sinta o peso do que se vai. É nessa contenção que reside sua potência política. Em tempos de censura global às expressões queer, “The Last Year of Darkness” lembra que a simples existência de corpos dançando, desejando e se tocando já é, por si só, um manifesto contra o apagamento.


O documentário nos coloca num luto coletivo e, ao mesmo tempo, uma celebração feroz. Mullinkosson entrega não apenas o último ano de uma boate, mas o último ano de uma versão possível de si mesmo para toda uma geração. Em meio à escuridão que se anuncia, o filme acende uma luz discreta, mas inextinguível: a de que, enquanto houver corpos queer se abraçando na penumbra, haverá sempre um lugar onde a noite ainda pode ser salva.


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