quarta-feira, 15 de abril de 2026

Trio (Itália, 2024)

 “Trio", de Luigi Il Grande, é um curta sobre o coração poliamoroso. Com apenas 18 minutos, o filme acompanha um trio já estabilizado, dois homens e uma mulher, cuja rotina de desejo compartilhado e cumplicidade cotidiana é abalada pela chegada de uma quarta figura feminina. O que poderia ser só mais um exercício de não-monogamia vira, nas mãos de Il Grande, um estudo cirúrgico sobre ciúme, limites e o que acontece quando o equilíbrio de um sistema queer é testado por fora. Não há julgamento moral barato; o diretor filma o desconforto com a mesma delicadeza com que captura o tesão.

O grande acerto aqui é tratar o poliamor não como utopia performática, mas como construção frágil e humana. Chiara Di Lazzaro e Moira Cerasia, creditadas na produção e direção auxiliar, ajudam a dar densidade emocional ao texto, que evita o didatismo e mergulha direto na pele dos personagens. As cenas de intimidade são cruas, quase documentais, sem cair no pornográfico gratuito. São olhares que demoram, toques que hesitam, silêncios que pesam. O curta entende que, no poliamor, o corpo nunca é só corpo: ele é território de negociação constante, de poder e de entrega.

A montagem alterna o cotidiano doméstico com os momentos de ruptura, criando uma sensação constante de instabilidade afetiva. Luigi Il Grande filma o apartamento como se fosse uma extensão dos corpos, paredes que apertam, luzes que revelam demais, espelhos que multiplicam a multiplicidade.

O curta desmonta a ideia romântica de que “amor multiplica e não divide”. Aqui o amor divide, sim… mas também expõe rachaduras, inseguranças e o fantasma da exclusão. A quarta mulher não é vilã nem salvadora; ela é catalisadora. E é exatamente nessa recusa de binarismos que o filme não celebra o poliamor como panaceia, mas o questiona como prática viva, suada e imperfeita.

Por trás da câmera, Il Grande demonstra maturidade rara num curta: ele sabe quando mostrar e quando esconder, quando deixar o espectador sentir o desconforto no próprio corpo. As atuações, contidas e precisas de Costanza Arciero, Gabriele Monaco, Martina Turano, Riccardo Cambiaghi, evitam o melodrama que costuma assombrar filmes sobre relacionamentos não-monogâmicos. O resultado é um filme que pulsa com tesão e melancolia ao mesmo tempo.

“Trio” não resolve nada e é exatamente por isso que acerta. Num momento em que o cinema queer mainstream às vezes romantiza demais a não-monogamia ou a transforma em fetiche cool, este curta italiano pequeno e afiado devolve o debate pro lugar mais honesto: o da carne, do ciúme, da escolha diária. É poliamor tratado com maturidade, desejo e respeito.

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