“Ataduras”, de JP Corrêa, é um curta que já chega com uma proposta clara: transformar o horror em linguagem de amor. Com apenas 19 minutos, o filme mergulha em uma atmosfera densa e carregada, onde Eva (Clara Raddatz) e Ágata Shirley (Verenna Cortegoso) constroem uma relação que desafia qualquer noção convencional. A história se desenrola a partir de um interrogatório conduzido por um investigador (Carlos Gui Silva), enquanto, em flashbacks viscerais, acompanhamos o nascimento de um romance que mistura desejo, mutilação e devoção.
A estrutura não linear funciona como um dos grandes acertos do filme. O presente, frio e quase clínico, contrasta com um passado saturado, onde tudo pulsa em excesso. Esse jogo entre contenção e explosão cria uma experiência sensorial interessante, como se o espectador estivesse constantemente atravessando duas realidades: a do julgamento e a da entrega. A confissão vira, então, não apenas um recurso narrativo, mas um dispositivo emocional, onde cada memória carrega peso e intensidade.
Esteticamente, “Ataduras” é extremamente consciente de seu orçamento. A fotografia, assinada por Linna Nascimento, aposta na luz e sombra com precisão, esculpindo corpos e espaços com luz e sombra de forma quase pictórica. Há uma influência evidente de referências como o expressionismo alemão e o barroco, especialmente na forma como os corpos são enquadrados e iluminados. As cicatrizes, as ataduras, o sangue, tudo é tratado como composição estética.
Esse cuidado estético não é gratuito, ele está diretamente ligado ao tema central do filme: o corpo como território político e emocional. Eva e Ágata não são apenas personagens, mas construções simbólicas de uma feminilidade marginalizada que se recusa a ser domada. A mutilação, aqui, deixa de ser violência pura e passa a ser também linguagem de intimidade, um gesto extremo de confiança e entrega.
Ao se posicionar como um horror sáfico, o curta não trata o amor entre mulheres como algo a ser suavizado ou normalizado, mas como uma força intensa, radical e até monstruosa. A ideia de “monstruosidade queer” aparece como potência. Eva e Ágata encontram uma na outra não apenas amor, mas um espaço possível de existência em um mundo que as rejeita. O grotesco vira abrigo, e o sangue, vínculo.
Premiado com Menção Honrosa no Hollywood Blood Horror Festival e semifinalista no IndieX Film Festival, “Ataduras” é um trabalho autoral que aposta alto em sua identidade. A estreia nacional no MUCA marca mais um passo de um projeto que entende o horror não como susto, mas como experiência emocional e política. Entre sombras e carne, o filme encontra beleza onde normalmente se espera repulsa, e é nesse gesto que reside sua potência.
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