quinta-feira, 2 de abril de 2026

Simão do Deserto (Simón del Desierto, México, 1965)

“Simão do Deserto”, de Luis Buñuel, é um média-metragem que acompanha o eremita Simão (Claudio Brook), um homem que decide viver no topo de uma coluna no meio do deserto para se aproximar de Deus. De cima, ele tenta resistir às tentações do mundo, enquanto o Diabo (Silvia Pinal) aparece repetidamente, assumindo diferentes formas para testá-lo. O que começa como uma sátira religiosa logo se transforma em algo bem mais inquietante, quase um delírio sobre desejo, repressão e hipocrisia.

Buñuel não tem o menor interesse em tratar a fé com reverência. Pelo contrário, ele desmonta o misticismo como se estivesse arrancando suas camadas uma a uma. Simão, isolado e idolatrado, parece mais preocupado com sua própria imagem de santidade do que com qualquer transcendência real. A coluna onde ele vive, erguida no meio do nada, funciona quase como um símbolo fálico: uma tentativa de se elevar acima do corpo que, ironicamente, só torna esse corpo ainda mais presente. Quanto mais ele tenta negar o desejo, mais o desejo se infiltra em tudo.


E aí entra o Diabo de Silvia Pinal, a mesma atriz eternizada anos antes em Viridiana (1961) , que está simplesmente fascinante. Ela surge ora como uma mulher sensual, exibindo pernas, seios e uma feminilidade exagerada, ora como figuras mais andróginas, chegando até a assumir uma aparência masculina e barbada em determinado momento. Esse jogo de transformações bagunça completamente qualquer noção fixa de gênero ou moralidade. O Diabo não é só tentação sexual: ele é instabilidade pura, uma força que embaralha santo e pecador, masculino e feminino, sagrado e profano.


Dentro desse ambiente quase exclusivamente masculino, o filme deixa escapar um subtexto homoerótico curioso e desconfortável. A figura do jovem monge Matías (Enrique Álvarez Félix), imberbe, delicado e “arrumado demais”, desperta em Simão uma desconfiança que vai além da disciplina religiosa. Ao mandá-lo embora “até que lhe cresça a barba”, Simão revela um medo que não é só do pecado em geral, mas de um desejo específico que ele não consegue (ou não quer) nomear.


E não é só isso. O deserto de Simão do Deserto está longe de ser um espaço puro. Pelo contrário, ele é povoado por desejos desviantes, estranhos, até grotescos. Há o anão que fala das cabras de forma obscena, pequenas interações carregadas entre os homens, uma energia sexual difusa que parece escapar por todos os lados. O que Buñuel sugere, com seu humor ácido e surrealista, é que a repressão não elimina o desejo: ela só o deforma, empurrando-o para lugares inesperados e muitas vezes mais perturbadores.


“Simão do Deserto” termina sendo uma provocação deliciosa e incômoda. Buñuel não oferece respostas nem conforto, só expõe o quanto nossas tentativas de controlar o desejo são frágeis, às vezes ridículas. Entre o sagrado e o profano, ele sugere que talvez a maior farsa esteja justamente na ideia de pureza. E é nesse terreno instável, cheio de ambiguidade e desejo reprimido, que o filme continua vivo, estranho, atual e surpreendentemente queer.


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