sexta-feira, 10 de abril de 2026

Erros Épicos (Big Mistakes, EUA, 2026)

“Erros Épicos" marca o regresso de Dan Levy ao universo das séries de comédia familiar, agora com um tom mais sombrio e criminoso, em parceria com Rachel Sennott na criação. A atração da Netflix, com oito episódios, segue Nicky, um pastor gay de Nova Jersey, e a irmã Morgan (Taylor Ortega), arrastados para o submundo do crime organizado após um roubo desastrado que envolve um colar falso ou não tão falso assim. O que começa como uma chantagem transforma-se numa saga de favores, segredos e lealdades forçadas, onde a família disfuncional se revela o verdadeiro motor do caos.

A narrativa é construída sobre a tensão entre o ordinário e o absurdo: os irmãos incompetentes tornam-se o duo mais desorganizado do crime, enquanto a mãe (Laurie Metcalf, em estado de graça) e a avó falecida adicionam camadas de neurose e memórias reprimidas. O ritmo alterna entre sequências de pura comédia física e momentos de quietude que revelam as fissuras emocionais da família.

Dan Levy, no papel de Nicky, entrega uma interpretação matizada. O pastor gay assumido, mas obrigado a manter o namoro com  Tareq (Jacob Gutierrez) em segredo porque a igreja “aceita” pastores gays desde que sejam celibatários, carrega o peso emocional da trama. A sua performance navega com precisão entre o humor autodepreciativo e a dor contida de viver parcialmente fora do armário. Taylor Ortega, como Morgan, surge como contraponto perfeito: impulsiva, hilária e igualmente presa nas próprias contradições.

A camada queer é uma bagunça deliciosa e caótica! A identidade de Nicky não é enfeite nem pano de fundo, ela explode no meio da trama, misturando desejo reprimido, fé hipócrita e aquele armário que aperta o peito o tempo todo. O pastor vive o caos total: aceito pela igreja desde que fique “celibatário”, né? Enquanto isso o namoro com Tareq vira segredo sujo, e os segredos da família viram um emaranhado de mentiras que espelham o próprio crime. Desejo e chantagem se embolam, afeto vira manipulação, romance vira bagunça. Tudo grita, tropeça e sangra ao mesmo tempo. É bagunçada, caótica viva, sem filtro de boa conduta.

A série aposta numa estética de comédia criminal ágil. O humor ácido surge não como piada fácil sobre religião ou sexualidade, mas como ferramenta para questionar as normas que aprisionam os personagens. Ainda assim, a série nem sempre escapa de certos excessos: o ritmo irregular em alguns episódios centrais faz com que a sátira social perca força, e os vilões do crime organizado permanecem um tanto  genéricos. Mesmo assim, o final entrega um twist que reconfigura tudo o que vimos, reforçando a ideia de que os maiores erros são sempre os mais íntimos.

No panorama atual da Netflix, “Erros Épicos" surge como um respiro queer que subverte o estereótipo do gay bem-comportado ao colocá-lo no centro de um submundo caótico. Não é a série mais perfeita do ano, mas é aquela que mais corajosamente explora como o armário e o crime podem ser duas faces da mesma moeda de sobrevivência. Um erro épico que, no final, acerta em cheio no que realmente importa, o riso, ainda que acompanhado de constrangimento. 

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