quinta-feira, 23 de abril de 2026

Mi Querida Señorita (Espanha, 1972)

 “Mi Querida Señorita”, de Jaime de Armiñán, é um dos marcos mais corajosos e pioneiros do cinema espanhol do final da ditadura franquista. Escrito com José Luis Borau, o filme conseguiu driblar a censura com apenas um corte mínimo e se tornou o maior sucesso de bilheteria do ano na Espanha. O longa transforma uma comédia-dramática aparentemente discreta numa obra que questiona identidade de gênero, desejo reprimido e a hipocrisia de uma sociedade conservadora, tudo isso sob o peso de um regime que ainda controlava cada frame.

Adela Castro Molina (José Luis López Vázquez) é uma solteirona de 43 anos que vive numa pacata cidade do norte da Espanha: costura, faz caridade e frequenta a missa com devoção. Seu dia a dia com a fiel criada Isabelita (Julieta Serrano, conhecida mais tarde por suas colaborações com Pedro Almodóvar) esconde segredos incômodos, o ritual diário de barbear-se, uma atração culpada e a angústia diante do cortejo de Santiago (Antonio Ferrandis). Quando um diagnóstico médico revela uma verdade biológica até então invisibilizada, Adela é forçada a reinventar-se como Juan e migrar para Madri, onde enfrenta burocracia absurda, solidão e o reencontro com Isabelita sob uma nova pele.


Armiñán e Borau tratam a intersexualidade (então chamada de hermafroditismo) com sensibilidade humanista, sem sensacionalismo, transformando o corpo de Adela/Juan numa metáfora viva da performance de gênero e do desejo reprimido. A tensão entre Adela e Isabelita carrega um erotismo velado e culpado; o “casamento” frustrado com Santiago e a cena com a prostituta Feli (Mónica Randall) expõem a rigidez binária da masculinidade e da feminilidade impostas. Não é um filme “trans” no sentido contemporâneo, a narrativa medicaliza a questão, mas é profundamente queer na forma como denuncia a violência da normatividade e celebra a ambiguidade como ato de resistência.


López Vázquez, ícone da comédia espanhola, entrega uma performance transformadora e delicadíssima, usando dublagem feminina de Irene Guerrero de Luna para a voz de Adela, que vai do cômico seco ao drama contido com maestria. O elenco de apoio brilha: Julieta Serrano como Isabelita, Lola Gaos como a tia da pensão, Chus Lampreave (outra Chica Almodóvar) e Enrique Ávila compõem um mosaico perfeito da Espanha provinciana e repressora.


Capturar as ansiedades de uma ditadura que se esfarelava pareceu natural para Armiñán, que precisou escrever cinco versões do roteiro para aprovar a censura. O resultado foi ovacionado: indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Hoje o longa é visto como clássico humanista que usa humor observacional para falar de repressão, machismo e a necessidade de “mudar de pele”, metáfora perfeita para a própria Espanha pré-transição democrática.


Mais de cinco décadas depois, Fernando González Molina assina uma atualização livre do clássico, escrita por Alana S. Portero e produzida por Suma Content (Los Javis). Com Elisabeth Martínez, atriz intersexo em seu debut nas telas, no papel principal, a nova versão amplia o olhar sobre a realidade intersexo, que no original era ainda um enigma, transformando o filme num ato de visibilidade e justiça histórica para corpos e identidades que o cinema demorou tanto a reconhecer.


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