domingo, 12 de abril de 2026

Peaches Goes Bananas (Bélgica/França, 2024)

 

“Peaches Goes Bananas”, de Marie Losier, cineasta experimental francesa-belga, conhecida por retratos íntimos de figuras underground como Genesis P-Orridge, passa 17 anos filmando a canadense Merrill Nisker, vulgo Peaches, e transforma o material bruto em um retrato pictórico que pulsa com tesão, raiva e afeto. Não é biografia linear, é um diálogo de duas décadas entre duas artistas que se entregam ao grotesco, ao corpo e à subversão de gênero. O filme captura a artista no palco como uma antichrist elétrica, peitos de silicone balançando, voz rouca cuspindo hinos feministas, e fora dele como uma figura terna, quase maternal, que cuida da irmã Suri com a mesma intensidade que devora plateias.

O estilo de Losier é puro cinema de corpo: 16mm e HD se entrelaçam em montagem não-cronológica, com som e imagem às vezes separados, colagens sonoras que fazem o espectador sentir o suor da performance na pele. “Peaches Goes Bananas” não explica Peaches; ele a encarna. As sequências de shows são cruas, próximas, quase pornográficas na energia, enquanto os momentos domésticos revelam uma vulnerabilidade que desmonta o mito da diva subversiva intocável. O foco está no envelhecimento como potência: quanto mais anos passam, mais Peaches parece à vontade no próprio corpo, transformando rugas e flacidez em armadura queer, em celebração da carne que não se curva ao padrão heteronormativo de juventude eterna.


O que torna “Peaches Goes Bananas” especial é exatamente essa ternura fora do holofote. Losier filma Peaches cuidando da irmã com esclerose múltipla, conversas sussurradas, risadas cúmplices, e de repente o monstro de palco vira humana, e é aí que o filme explode. O corpo não é só ferramenta de provocação; é território político de resistência ao tempo, ao machismo, ao binário de gênero. Peaches usa atributos masculinos de forma cômica e feroz, queera a própria imagem de sex symbol e, com o passar dos anos, abraça uma liberdade ainda mais selvagem. É cinema queer no seu melhor: não apologético, não explicativo, só pulsando.


Comparando com “Teaches of Peaches”, de Philipp Fussenegger e Judy Landkammer, vencedor do Teddy Award de Melhor Documentário na Berlinale 2024, o contraste é delicioso e complementar. Enquanto o filme alemão mergulha na turnê de aniversário dos 20 anos de “The Teaches of Peaches”, com arquivos dinâmicos, ensaios frenéticos e o espetáculo grandioso da Peaches em turnê, “Peaches Goes Bananas” recusa o glamour da carreira e vai para o íntimo, para o off-stage, para o processo lento de envelhecer junto com a artista. Um é explosão coletiva, o outro é sussurro particular.


“Peaches Goes Bananas” é um manifesto contra o puritanismo etário e o apagamento de corpos que ousam envelhecer em cena. Marie Losier não filma uma estrela; filma uma amizade, um corpo em constante revolução e uma energia que, com o tempo, só fica mais potente. Porque Peaches não vai embora, ela só fica mais banana, mais livre, mais transgressora.

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