domingo, 26 de abril de 2026

Michael (EUA, 2026)

Antoine Fuqua  decidiu que o Rei do Pop merecia algo mais leve: um comercial de duas horas e meia disfarçado de cinebiografia. “Michael” não é um filme, é uma playlist cara com imagens em movimento. Tudo que poderia incomodar o espelho da família Jackson, as acusações, foi varrido para debaixo do tapete persa de Neverland, deixando apenas os hits, os passos de dança e um sobrinho que imita o tio com competência de cover band de shopping.

O roteiro de John Logan é tão covarde quanto um assessor de imprensa em dia de escândalo. Fuqua filma a ascensão de Michael como se estivesse gravando um clipe da MTV dos anos 80: montagem acelerada, olhares dramáticos para o céu e pai abusivo, interpretado por Colman Domingo, reduzido a vilão de novela das seis. Qualquer sombra real da infância roubada, da pressão insana ou das feridas profundas do artista vira mera sugestão tímida. O elefante na sala? Nem sombra dele. O filme prefere mostrar o chimpanzé Bubbles do que encarar o homem que o comprou.

Jaafar Jackson até entrega uma imitação impressionante nos palcos. Digna de win no Snatch Game. O garoto tem carisma, presença e consegue replicar aqueles gestos icônicos sem virar caricatura. O problema é que o roteiro não lhe dá nada além de superfície para atuar. Michael aqui é um boneco sorridente, eternamente vítima leve de um pai mau e de uma indústria exigente. Nunca um ser humano contraditório, obsessivo, brilhante e, sim, profundamente perturbado. O sobrinho dança bem, mas não consegue salvar um personagem escrito com medo de processar. Na direção, Fuqua aposta em uma estética polida e acessível. As sequências musicais recriam com fidelidade momentos conhecidos, enquanto as cenas mais dramáticas seguem uma linha convencional. O resultado é um filme visualmente agradável, mas que evita riscos mais ousados na construção narrativa. Tecnicamente, “Michael” é bem produzido e cumpre o papel de entreter, especialmente para fãs da música do artista. No entanto, a escolha por uma abordagem mais cautelosa faz com que a cinebiografia deixe de explorar contradições e zonas de tensão que poderiam enriquecer o retrato.

Assim, o longa se apresenta como uma homenagem bem-acabada, que privilegia a celebração em vez da investigação. Para alguns, essa escolha pode soar como uma forma de preservar o legado; para outros, como uma oportunidade perdida de encarar de frente a complexidade de uma figura tão marcante.

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