quinta-feira, 30 de abril de 2026

Bagger Drama (Suíca, 2024)

Em “Bagger Drama”, o suíço Piet Baumgartner faz sua estreia em longas de ficção com uma obra que escava, literalmente, as camadas de silêncio emocional de uma família rural bernense. O negócio familiar de aluguel, venda e reparo de escavadeiras (“Bagger”, em alemão) serve como metáfora potente: enquanto as máquinas movem toneladas de terra com precisão mecânica, os corpos e corações dos personagens permanecem enterrados em luto, dever e incomunicação.

Um ano após a morte trágica da filha em um acidente no rio, a família se desintegra lentamente, cada membro lidando com a dor à sua maneira, ou, mais precisamente, sem lidar. O filme avança em capítulos anuais, pontuados por imagens recorrentes do rio, como se o tempo corresse sem realmente levar ninguém adiante. Baumgartner constrói um “novo Heimatfilm” crítico, onde a província suíça não é idílio bucólico, mas espaço de repressão afetiva.

As atuações são o grande mérito: Bettina Stucky transmite a paralisia depressiva da mãe com uma contenção dolorosa, Phil Hayes carrega a rigidez do pai que busca afeto fora de casa, e Vincent Furrer, como o filho Daniel, entrega uma transição adulta convincente, cheia de ambivalência entre obrigação familiar e desejo de fuga.

O que torna “Bagger Drama” especialmente relevante para o olhar queer é a forma natural e despretensiosa com que insere a questão da sexualidade de Daniel. O coming-out do filho para a mãe não é tratado como clímax dramático ou momento de redenção hollywoodiana, mas como mais uma camada do luto e da falta de comunicação familiar. A cena, marcada por um riso nervoso que mal disfarça a dor, revela como o desejo queer surge em meio ao colapso doméstico, sem ganhar o centro do palco. Baumgartner integra a vivência gay do personagem ao tecido maior da repressão afetiva suíça rural, mostrando que a dificuldade de falar sobre amor e intimidade não é exclusiva, mas ganha contornos ainda mais solitários quando se trata de uma sexualidade dissidente.

Apesar de certa previsibilidade no nicho do drama familiar, “Bagger Drama” se sustenta pela sinceridade emocional. O silêncio não é romantizado, mas dissecado com paciência. O diretor  demonstra sensibilidade para capturar o peso do não dito e a possibilidade tímida de recomeços. O filme deixa a sensação de que escavar a própria terra emocional é um trabalho lento, sujo e necessário. É um primeiro longa promissor de Piet Baumgartner, que equilibra contenção europeia com toques de humanidade universal, e que, ao tocar na experiência queer sem transformá-la em bandeira, ganha ainda mais força e veracidade.

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