“Papagaios”, dirigido por Douglas Soares, mergulha na periferia do Rio de Janeiro, em Curicica, para contar uma história que mistura humor ácido, tensão e um olhar bastante particular sobre a obsessão pela visibilidade. A trama acompanha Tunico (Gero Camilo), um veterano “papagaio de pirata” que vive para aparecer no fundo de reportagens de TV, e vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que acaba se tornando seu aprendiz. O que começa como uma relação de ensino rapidamente se transforma em algo mais complexo e perigoso.
Gero Camilo sustenta o filme com uma atuação magnética, que oscila entre o patético e o perturbador. Tunico é um personagem movido por um desejo quase infantil de ser visto, reconhecido, validado, mesmo que por poucos segundos na tela. Essa obsessão, que poderia soar apenas cômica, ganha contornos sombrios à medida que o filme avança. Há algo profundamente triste em sua necessidade de existir apenas através do olhar dos outros.
A chegada de Beto muda completamente a dinâmica. Ruan Aguiar constrói o personagem com uma ambiguidade constante, nunca entregando totalmente suas intenções. Beto é ao mesmo tempo vulnerável e calculista, alguém que aprende rápido demais e que parece entender Tunico melhor do que deveria. A relação entre os dois vira o verdadeiro motor do filme, criando uma tensão que mistura admiração, dependência e disputa.
É justamente nessa relação que “Papagaios” revela sua camada queer. Tunico enxerga em Beto não só um aprendiz, mas alguém que preenche um vazio emocional evidente, e essa aproximação carrega uma tensão homoerótica que nunca se explicita totalmente, mas está sempre ali, latente. O desejo aparece atravessado por poder, controle e necessidade de afeto, criando uma dinâmica que foge de representações mais tradicionais. Não se trata de romance, mas de uma relação ambígua, onde sedução e manipulação caminham juntas, refletindo também sobre masculinidades frágeis e carentes de validação.
Douglas Soares usa esse vínculo para ampliar o comentário sobre mídia e espetáculo. A ideia de “aparecer a qualquer custo” vai além da televisão e passa a contaminar as relações pessoais. Tunico quer ser visto pelo público, mas também por Beto. E Beto, por sua vez, parece entender como usar esse desejo a seu favor. O filme constrói, assim, um jogo de espelhos onde ninguém é completamente inocente, e onde a busca por visibilidade se confunde com a necessidade de existir.
Premiado no Festival de Cinema de Gramado, onde levou Kikitos importantes como Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Ator, “Papagaios” é um thriller satírico que encontra sua força na mistura de tons e na construção de personagens moralmente ambíguos. Douglas Soares entrega um filme inquieto, que diverte e desconcerta ao mesmo tempo, enquanto expõe o quanto o desejo de ser visto pode nos levar a lugares inesperados e, às vezes, perigosos.


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