domingo, 26 de abril de 2026

Tres Veces (Espanha, 2020)

“Tres Veces”, o primeiro curta-metragem de Paco Ruiz, é uma peça de cinema intimista e perturbadora que transforma um encontro casual via app em um estudo de tensão psicológica. O  filme constrói uma narrativa compacta e eficaz, ambientada inteiramente na casa de uma família espanhola suburbana. Ruiz, que também assina o roteiro, demonstra maturidade precoce ao equilibrar desejo, vulnerabilidade e perigo, criando um retrato cru dos riscos da sexualidade gay na era digital. O título, que sugere repetição, revela-se em um detalhe narrativo que reforça o ciclo de ansiedade e controle.

Mario (Koldo Olabarri) é o protagonista: um jovem gay que, aproveitando a ausência dos pais em viagem, decide marcar um encontro sexual anônimo pela internet. Sozinho em casa, ele prepara o espaço com uma mistura de excitação e cautela, mas o que começa como uma fantasia rápida logo ganha contornos mais complexos.

Quando Soren (Frank Feys) chega à porta, o tom muda radicalmente. O homem mais velho, charmoso à primeira vista, traz consigo uma presença que desestabiliza o equilíbrio da casa. Feys interpreta Soren com uma frieza calculada que oscila entre sedução e ameaça, criando uma dinâmica de poder assimétrica desde o primeiro diálogo. O encontro, inicialmente consensual, começa a revelar rachaduras sutis,  olhares prolongados, perguntas invasivas, silêncios carregados, que transformam o espaço doméstico em um palco de desconforto crescente.

Aqui, “Tres Veces" flerta abertamente com o thriller psicológico e com os filmes clássicos de invasão domiciliar, mas atualizados para a era do Grindr. Em vez de um invasor mascarado ou forçado, o “intruso” é convidado pela própria vítima, o que torna a tensão ainda mais insidiosa. Ruiz usa enquadramentos fechados, sons ambientes minimalistas e cortes precisos para amplificar a sensação de medo. A casa, que deveria ser refúgio, vira armadilha; o aplicativo, ferramenta de liberação, vira portal de risco. É uma home invasion queer moderna, onde o perigo não vem de fora, mas da própria decisão de abrir a porta.


O curta acerta ao explorar temas como desejo reprimido, desigualdade geracional e os perigos da hiperconexão sem filtros. A vulnerabilidade de Mario contrasta com a experiência manipuladora de Soren, gerando um jogo de gato e rato que questiona quem realmente detém o controle. Ruiz evita sensacionalismo sexual explícito, optando por uma abordagem mais sensorial e psicológica, o que torna o desconforto ainda mais palpável.

No final, “Tres Veces” se destaca como um exercício de precisão narrativa que deixa o espectador inquieto e reflexivo. Com direção segura, atuações convincentes e uma visão afiada sobre a sexualidade contemporânea, o curta de Paco Ruiz não só cumpre sua premissa como eleva o formato do thriller queer indie. É um alerta disfarçado de drama íntimo.

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