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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Blank Narcissus (Passion of the Swamp) (Austrália/Reino Unido, 2022)

“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” dura pouco mais de onze minutos, mas parece condensar uma história inteira do desejo queer em miniatura. Peter Strickland, cineasta que construiu carreira explorando fetiche, textura e erotismo em obras como “The Duke of Burgundy” e “In Fabric”, aqui radicaliza ainda mais seu projeto estético. O ponto de partida é deliciosamente absurdo: em 2022, um envelhecido diretor de filmes pornôs grava comentários em áudio para o relançamento de um obscuro pornô underground em 16mm realizado em 1972, uma referência à “Pink Narcissus”. Enquanto ouvimos suas lembranças, vemos o protagonista atravessar uma sequência de devaneios eróticos artificiais e hipnóticos.

O que poderia virar apenas exercício de estilo rapidamente revela outra coisa. O dispositivo do comentário em DVD transforma “Blank Narcissus” numa obra sobre memória e perda. O diretor, dublado por Michael Brandon, não está simplesmente comentando um filme antigo, ele está tentando reviver um amor que ficou preso dentro das imagens. Cada observação técnica acaba se convertendo em confissão sentimental. O desejo aparece como arquivo deteriorado, algo que permanece vivo justamente porque nunca foi totalmente consumado.

Visualmente, Strickland entrega um dos objetos mais assumidamente kitsch da sua filmografia. O título já anuncia sua linhagem: uma brincadeira direta com “Pink Narcissus”, clássico queer de James Bidgood, cuja influência aparece no erotismo artificial, nos cenários evidentemente falsos e no prazer em transformar corpo masculino em superfície decorativa. Aqui não existe preocupação com realismo. Existe cetim demais, fumaça demais, cor demais. O erotismo não nasce do naturalismo, nasce justamente do exagero e da fabricação. É um filme que entende o camp não como ironia vazia, mas como linguagem afetiva.

Strickland transforma pornografia em melancolia. Embora o universo pornográfico organize toda a narrativa, o curta nunca parece interessado em excitação direta.. O diretor dentro da narrativa parece incapaz de separar desejo, autoria e saudade. Existe algo profundamente triste na ideia de que seu grande amor sobreviva apenas como material restaurado, pronto para consumo de novos espectadores décadas depois.

“Blank Narcissus” funciona como uma pequena cápsula do tempo sobre memória homoerótica. Em vez de tratar o passado gay como trauma ou segredo, o curta o apresenta como performance, fantasia e encenação. O amor entre diretor e ator nunca é romantizado nem explicado demais, apenas permanece suspenso entre erotismo e arrependimento. 

“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” talvez seja um filme mínimo dentro da carreira de Peter Strickland, mas também parece uma chave secreta para entender sua obra inteira. Fetiche, performance, memória, som e obsessão estão todos aqui. Em apenas doze minutos, ele cria um pornô imaginário que acaba se revelando um melodrama sobre envelhecer e continuar desejando. E talvez essa seja sua ideia mais bonita: algumas paixões sobrevivem porque nunca deixaram de ser ficção.


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

15 FILMES LGBTQIA+ DA DÉCADA DE 1970

 

Com um certo atraso, também aderi a TREND dos melhores filmes dos ANOS 1970, porém de uma ótica queer. A seleção foi mais feita pela relevância do que pela preferência, apesar de gostar de todos, e achar essas obras indispensáveis no cinema LGBTQIA+.

Carmilla, a Vampira de Karnstein(The Vampire Lovers, Reino Unido, 1970)


Dirigida por Roy Ward Baker, a adaptação de 'Carmilla', se passa no século XIX, a femme fatale sáfica de caninos afiados Carmilla de Karnstein circula pela Áustria cravando os dentes em meninas a cada esquina.

The Boys in the Band(EUA, 1970)

Dirigido por William Friedkin, de O Exorcista, o filme é baseado na peça Off-Broadway, de 1968, escrita por Matt Crowley.  Ousado par a época, até certo ponto, a obra é quase como uma reunião entre gays assumidos e bem resolvidos, porém com um hétero a espreita.


Ludwig(Itália, 1973)

No drama épico, de Luchino Visconti, a representação da homossexualidade de Ludwig causou controvérsia, particularmente na Baviera, onde o rei Ludwig era admirado por muitos conservadores. O longa é estrelado por Romy Schneider e Helmut Berger.


Não é o Homossexual que é perverso, mas a situação em que ele vive(Nicht der Homosexuelle ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt, Alemanha, 1971)

Apresentado como um documentário ficcional, ensaio e apelo, o filme de Rosa von Praunheim, iniciou o movimento homossexual na Alemanha e também causou alguma controvérsia.


Pink Narcissus(EUA, 1971)

Filmado entre 1964 e 1970, 'Pink Narcissus', de James Bidgood, que por anos não teve a identidade revelada assinando a obra como Anônimo, conta a história etérea de um jovem e suas fantasias eróticas com as quais ele passa o tempo.


Lisztomania(Reino Unido, 1975)


Escrito e dirigido por Ken Russell, o filme é sobre o compositor do século XIX Franz Liszt. O roteiro é derivado, em parte, do livro de Marie d'Agoult, sobre seu caso com Liszt. Não é exatamente queer, porém não faltam símbolos fálicos e uma estética camp.


A Rainha Diaba(Brasil, 1974)

O longa, de Antônio Carlos da Fontoura, é um marco por ser um dos primeiros no cinema brasileiro, em plena ditadura, a trazer o protagonismo negro e homossexual, inspirado na lenda Madame Satã, ainda que esse viesse acompanhado de bandidagem e caricatura.


Toda Nudez Será Castigada(Brasil, 1973)

Arnaldo Jabor adapta o texto de Nelson Rodrigues, onde o viúvo religioso Herculano se encontra em um dilema quando seu irmão, no intuito de ajudá-lo, marca um encontro com uma prostituta, Geni. O filho, se recusa a aceitar o relacionamento do pai.


Salò, ou os 120 Dias de Sodoma(Salò o le 120 giornate di Sodoma, Itália, 1975)

Na notória adaptação do romance do Marquês de Sade, Pier Paolo Pasolini, troca os quatro ricos libertinos franceses do século 18 , por quatro ricos fascistas italianos procurando maneiras de manter seu poder depois que o reinado de quase 21 anos de Benito Mussolini.


As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant(Alemanha, 1972)

No longa de Rainer Fassbinder, Petra Von Kant é uma estilista de prestígio autossuficiente.  Sua principal companhia é Marlene, sua secretária, que ela não cansa de explorar. Petra se apaixona perdidamente pela oportunista Karin.


Pink Flamingos(EUA, 1972)

Com Pink Flamingos, John Waters realizou sua primeira obra em cores, consolidou sua parceria com a drag queen Divine, além de reforçar sua estética queer e subversiva que o estabeleceria como o “Papa do Trash”


The Rocky Horror Picture Show(EUA, 1975)



Dirigido por Jim Sharman, o filme é uma adaptação do espetáculo musical, Off Broadway escrito por Richard O Bien. O mote principal do longa é ser uma sátira musical dos filmes de terror, por isso há muitas referências à mansões mal assombradas.


Magnicídio(Jubilee, Reino Unido, 1978)


No longa, de Derek Jarman, considerado o primeiro filme punk da história, a Rainha Elizabeth I viaja no tempo para ver o futuro, e vai para o Reino Unido dos anos 1970. Lá ela se assusta: neste mundo pós-apocalíptico.


O Lugar sem Limites(El Lugar sin Limites, México, 1978)

Arturo Ripstein recorre a um dos maiores escritores do “boom” literário latino-americano, José Donoso, e adapta seu romance homônimo. La Manuela, é uma travesti  que dirige um bordel decadente, com sua filha La Japonesita, fruto de uma noite de loucura.


Um Dia de Cão(The Dog Day Afternoon, EUA, 1975)

Estrelado por Al Pacino, o filme, de Sidney Lumet, começa com a história de um homem que assola um banco para financiar a mudança de sexo de seu amante. Real, a situação atraiu centenas de policiais e milhões de telespectadores.


domingo, 2 de maio de 2021

Pink Narcissus(EUA, 1971)

Filmado entre 1964 e 1970, Pink Narcissus de James Bidgood, que por anos não teve a identidade revelada assinando a obra como Anônimo, conta a história etérea de um jovem e suas fantasias eróticas com as quais ele passa o tempo. 

O modelo e protagonista, Bobby Kendall, retrata a um garoto de programa, preso em um inferno surrealista. Ele é Narcissus, jovem que ama seu próprio reflexo e se imagina nas mais alegóricas, coloridas e estranhas alucinações. A câmera passeia incansavelmente por seu corpo fazendo uma rara analogia do umbigo com outro orifício.


Embora o filme não tenha diálogos, a história se desenrola como um sonho, com o protagonista experimentando alguma sensação, que desencadeia nele uma viagem ao próprio subconsciente. Nós o vemos como um toureiro, um imperador, assim como uma figura espiritual nua no deserto ou como uma alma perdida vagando pelas ruas de uma Nova York homoerotizada.



A obra de Bidgood se apoia num forte valor fantástico, e numa atmosfera vanguardista que já era explorada por Kenneth Anger, desde o final dos anos 1940. Figurinos exóticos e teatrais, purpurina e tecidos brilhantes, compunham o visual do longa, que com sua estética
camp oferece identidade, erotismo, desejo e marginalidade. 

Gravado em 8mm, com uma imaginativa e brilhante iluminação, o longa não tinha roteiro apenas um storyboard que proporcionou momentos masturbatórios e de poesia audiovisual, como uma borboleta pousada em um pênis ou o ousado close de uma ejaculação.


A vivacidade das fantasias do protagonista, nos revela como seu narcisismo é sua maior armadilha já que sua imaginação pode lhe levar a caminhos obscuros. O filme que se assemelha com uma instalação artística ou uma vídeo-arte, é uma experiência absolutamente imersiva, psicodélica, homoerótica, onde um jovem é maravilhosamente objetivado.


Celebrado como uma obra underground e precursora do cinema LGBTQIA+, o rococó, kitsch, e extravagante Pink Narcissus inspiraria uma geração de artistas talentosos tais como Derek Jarman, Pierre et Gilles, David la Chapelle e Bruce la Bruce, cujo último longa chama-se, casualmente, Saint Narcissus.