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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pela Metade (Half Man, Reino Unido/EUA, 2026)

Depois do fenômeno desconfortável de “Bebê Rena”, Richard Gadd retorna ainda mais cruel consigo mesmo, e com o espectador, em “Pela Metade”, minissérie da HBO que transforma trauma masculino, repressão queer e violência emocional em um verdadeiro terror psicológico. Criada, escrita e estrelada por Gadd, a produção acompanha a relação tóxica entre Ruben Pallister e Niall Kennedy em duas linhas temporais distintas: a juventude dos personagens na Escócia dos anos 80 e o reencontro devastador na vida adulta, décadas depois.

Stuart Campbell interpreta o jovem Ruben, enquanto Mitchell Robertson vive o jovem Niall, com Richard Gadd e Jamie Bell assumindo as versões adultas, de irmãos de criação filhos de um casal sáfico. A narrativa começa no presente, durante o casamento homoafetivo de Niall, quando a reaparição de Ruben desencadeia uma explosão de violência. A partir daí, a série alterna passado e presente para revelar como esse vínculo simbiótico, destrutivo e marcado por desejo reprimido foi construído ao longo de quase 40 anos.

“Pela Metade” é traumatizante. Não existe maneira mais honesta de descrevê-la. Cada episódio parece desenhado para acelerar gatilhos emocionais específicos: abuso, homofobia internalizada, violência doméstica, sexo atravessado por culpa e masculinidade tóxica em estado terminal. Há momentos em que assistir à série se torna quase fisicamente desagradável, especialmente nas cenas em que consentimento, medo e desejo se embaralham de maneira perturbadora.

No centro disso tudo está a relação entre Ruben e Niall. Ruben é violento, instável, controlador, mas também profundamente ferido. Já Niall vive esmagado pela repressão sexual, um comportamento autodestrutivo e pelo medo constante de desejar aquilo que aprendeu a odiar em si mesmo. A série trabalha a relação dos dois quase como uma história de amor doentia e deformada pela violência patriarcal.

Diferente de muitos dramas LGBTQIA+ contemporâneos preocupados em tornar seus personagens imediatamente higienizados ou empáticos, “Pela Metade” insiste nas zonas mais feias e contraditórias da sexualidade reprimida. Niall não é um protagonista confortável. Seu medo da própria homossexualidade destrói relações, alimenta silêncios e sustenta sua dependência emocional de Ruben. 

A minissérie não é agradável, nem pretende ser. Richard Gadd cria uma obra agressiva, exaustiva, abusiva e muitas vezes difícil de suportar, mas também assustadoramente honesta sobre violência masculina, repressão queer e heranças emocionais que atravessam décadas. “Pela Metade” escolhe permanecer na ferida aberta. E mesmo quando parece insuportável, continua impossível de abandonar, mesmo que depois você precise fazer meditação ou terapia.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Primeiras Impressões de PELA METADE (HALF MAN)

 Depois do fenômeno "Bebê Rena", Richard Gadd mergulha no lodo escocês úmido e opressivo dos anos 80 com "Pela Metade", uma minissérie intensa sobre a relação tóxica e codependente entre dois “irmãos” que não dividem sangue, mas compartilham segredos, traumas e uma atração reprimida que atravessa décadas.

O primeiro episódio é denso, úmido e o oposto completo do considerado belo. A atmosfera é pesada desde os primeiros minutos, com uma Escócia provinciana que parece grudar na pele e asfixiar qualquer tentativa de respiro. A premissa gira em torno de Niall (Jamie Bell), que tenta enterrar a névoa de um passado doloroso, mas que Ruben (Gadd)  traz de volta com a força de um soco, literalmente,  abrindo a porta para uma dinâmica que mistura afeto distorcido e violência.


A minissérie  planta desde o início as sementes da masculinidade tóxica, mostrando como a repressão, a vergonha internalizada e a violência se misturam com afeto distorcido. O bullying homofóbico na escola é constante, alimentado pelos rumores sobre as mães dos garotos, que vivem um relacionamento lésbico numa cidade pequena onde qualquer desvio da norma vira fofoca venenosa. Há homoerotismo leve, mas carregado, e uma tensão sexual latente que permeia cada olhar e cada silêncio.

O impacto da cena chave é brutal: a química entre os atores jovens Mitchell Robertson, como Nial, e Stuart Campbell, como Ruben, te prende e incomoda ao mesmo tempo. É desejo ou é coerção? A cena borra esses limites de forma visceral, deixando claro que nada ali é simples, confortável ou inocente.O que mais me chamou atenção foi a justamente essa cena da perda de virgindade de Niall. Ali existe um olhar de cumplicidade, uma troca sexual que não acontece no ato em si, mas na vigilância, um momento onde desejo, medo, poder e afeto distorcido se entrelaçam de forma que fica reverberando muito depois dos créditos.


As atuações dos jovens são o grande destaque do episódio, entregando uma química já explosiva, carregada de perigo e uma intimidade que assusta. Jamie Bell, como Niall adulto, já aparece com uma performance profunda, quebrada e cheia de camadas de vergonha internalizada que complementa perfeitamente essa base juvenil. A direção transforma a Escócia provinciana num personagem opressivo, que asfixia os protagonistas, amplifica cada olhar carregado e transforma o ambiente numa prisão invisível de expectativas masculinas.


"Vale a pena continuar?" Vale muito a pena. Você sabe que os próximos episódios prometem abalar o psicológico, porque "Pela Metade" é tudo para mostrar um trauma sendo exposto como ferida aberta, sem filtro e sem piedade. AVISO DE GATILHOS: A série é pesada, com violência física, conteúdo sexual explícito, homofobia internalizada, bullying, abuso emocional e temas de repressão sexual. Mas promete ser uma das experiências mais intensas e provocativas do ano.