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domingo, 19 de abril de 2026

Drifting Laurent (Laurent dans le vent, França, 2025)

 

Em "Drifting Laurent", o trio de diretores franceses Anton Balekdjian, Léo Couture e Mattéo Eustachon constrói uma fábula contemporânea de deriva existencial que, à primeira vista, parece um drama naturalista sobre solidão alpina, mas revela-se uma comédia afiada e profundamente humana. Laurent (Baptiste Perusat), aos 29 anos, é um jovem à deriva: sem rumo profissional, emocional ou afetivo, ele se refugia num resort de esqui deserto fora de temporada nos Alpes. O que começa como fuga vira encontro com um microcosmo de excêntricos locais, forçando-o a confrontar sua própria imobilidade. A direção a três cabeças equilibra humor seco e melancolia com uma precisão cirúrgica, transformando o vazio da montanha num espaço de possibilidades.

O roteiro, também coletivo, evita o didatismo ao deixar que as relações se construam organicamente. Laurent não chega com um trauma explícito ou uma crise de identidade gritada; ele simplesmente “flutua”, como sugere a imagem inicial de pés pendurados no ar. O off-season alpino funciona como metáfora perfeita para a suspensão queer: um lugar onde normas sociais afrouxam, identidades se reconfiguram e laços improváveis surgem. A cinematografia, de Mattéo Eustachon, captura a paisagem com uma beleza fria que contrasta com o calor humano das interações, criando um ritmo contemplativo que nunca cai no tédio. É cinema que respira, que dá espaço para silêncios carregados e olhares que dizem mais que diálogos.


Baptiste Perusat entrega uma performance reveladora como Laurent: charmoso sem esforço, desajeitado o suficiente para ser crível, ele carrega o filme nas costas com uma naturalidade que lembra os anti-heróis de Rohmer. Ao seu redor, o elenco secundário brilha. Béatrice Dalle, como Sophia, rouba cenas com sua presença magnética e vulnerabilidade crua; o filho viking-obsessivo de Thomas Daloz e a idosa acumuladora interpretada por Monique Crespin formam um mosaico de “found family” que soa autêntico.


A fluidez sexual de Laurent, bissexualidade tratada com casualidade, incluindo um flerte sutil com um fotógrafo local,  nunca é o centro dramático, mas permeia naturalmente o tecido emocional do filme. Aqui reside o grande acerto queer de Drifting Laurent: não há coming-out, nem sofrimento performático. A sexualidade é vivida com leveza e complexidade, integrada à busca maior por pertencimento. A irmã lésbica de Laurent aparece em breves menções que reforçam uma rede familiar não-heteronormativa, enquanto os laços que ele tece com os moradores do vilarejo ecoam a construção de famílias escolhidas tão caras à experiência LGBTQIA+. 


O tom oscila entre o cômico e o tocante. Momentos de humor absurdo convivem com toques de melancolia realista sobre envelhecimento, luto e a dificuldade de “parar de rodar em círculos”. Não há vilões, apenas humanos imperfeitos buscando sentido. Essa ausência de julgamento moral é revigorante num cinema queer que, às vezes, ainda aposta no melodrama pesado. Um indie quee consegue ser ao mesmo tempo leve e profundo, queer sem ser panfletário.