domingo, 12 de julho de 2026

Beautiful Evening, Beautiful Day (Lijepa večer, lijep dan, Croácia/ Bósnia/ Herzegovina/ Canadá/ Chipre/ Polônia, 2024)

Em “Beautiful Evening, Beautiful Day”, Ivona Juka recupera uma parcela pouco visível da memória queer do Leste Europeu para construir um drama histórico de grande fôlego. Lovro (Dado Ćosić), Nenad (Đorđe Galić), Stevan (Slaven Došlo) e Ivan (Elmir Krivalić) lutaram como partisans contra os Ustaše e os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e, dezesseis anos depois, tornaram-se cineastas reconhecidos na Iugoslávia comunista. A suspeita sobre a homossexualidade dos quatro, porém, desperta o interesse do Partido, que encarrega Emir (Emir Hadžihafizbegović) de vigiar e sabotar suas vidas e carreiras. Juka parte desse conflito para lançar uma pergunta incômoda: o que acontece quando homens que lutaram pela liberdade descobrem que a nova ordem também não admite quem eles são? A própria diretora afirma ter pesquisado teses acadêmicas sobre a perseguição a homossexuais na Iugoslávia comunista para desenvolver o projeto. 

A dimensão queer ganha força justamente porque os protagonistas não surgem apartados da História: eles ajudaram a construí-la. São heróis de guerra, artistas e homens gays, uma combinação que confronta a maneira como narrativas nacionais frequentemente higienizam seus personagens para acomodá-los em mitologias políticas. O filme causou controvérsia ao colocar protagonistas gays no centro da memória antifascista e ao representar sua sexualidade de maneira explícita, algo ainda incomum no cinema croata. Juka não esconde os corpos nem transforma a intimidade em elipse respeitável. Sexo, desejo e amor ocupam a tela porque a perseguição política depende exatamente da tentativa de controlar essas experiências. 

O cinema dentro do cinema amplia esse embate. Lovro, Nenad, Stevan e Ivan trabalham em uma estrutura cinematográfica atravessada pela propaganda estatal, ao mesmo tempo em que enxergam a arte como possibilidade de crítica à sociedade pela qual combateram. A vigilância sobre a sexualidade passa, assim, a dialogar com a censura da criação: controlar o corpo e controlar a imagem pertencem ao mesmo projeto autoritário.

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra no preto e branco fotografado por Dragan Ruljančić uma beleza severa. Os enquadramentos frequentemente parecem comprimir os personagens entre paredes, corredores e estruturas institucionais, enquanto paisagens e sequências próximas à água abrem breves zonas de respiração. O filme não teme a sensualidade masculina e algumas de suas cenas eróticas possuem uma frontalidade rara, mas a beleza das imagens convive com tortura, violência sexual e discriminação. 

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra sua imagem mais poderosa na contradição de seus protagonistas: homens celebrados por enfrentarem o fascismo que precisam novamente lutar pelo direito de existir. Ivona Juka transforma a memória queer em terreno de disputa política e faz do cinema uma arma contra o apagamento. “Beautiful Evening, Beautiful Day, olha para 1957,  sabendo que regimes mudam de nome, mas a vigilância sobre corpos LGBTQIA+  possui uma assustadora capacidade de sobreviver ao tempo.


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